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Vida Louca




Nasceu Maria do Socorro, quando menina atendia por Maria, quando mulher apresentava-se Help. Nasceu com destino marcado pelo abandono, não proposital, mas as contingências de sua vida a fizeram só. A mãe morreu cedo, tísica. O pai era homem bom e honesto, mas incapaz de criar sozinho uma filha pequena. Assim que a mãe sucumbiu à doença, ele levou a garota para a casa de uns tios da esposa e lá a deixou com a promessa de voltar logo. Não voltou. E a menina cresceu naquela cidadezinha, sem notícias do pai e órfã de mãe. Cresceu bonita e ardilosa. Sua história endureceu sua alma e impregnou de fel o seu caráter. Não aprendeu o colo de mãe, o carinho de pai, o aconchego da família, a paz de um lar. Cresceu numa casa cheia de gente e solidão.

Teve uma juventude agitada. Era cortejada por muitos rapazes, de quem arrancava suspiros de luxúria e pra quem sua figura era promessa de paixão. Não tinha as mesuras das moças da época. Era falante, contadora de histórias e não tinha receio de quase nada. Sentia-se livre e dona de sua vida, seu corpo e sua história. Era adorada por uns, amaldiçoada por outros, mas não se importava. Pertencia àquele grupo de pessoas que precisam viver intensamente cada momento; cada emoção é a mais importante. Depois se via o resto.

Acabou se casando com um rapaz de família tradicional da cidade, bancário e bem fincado na vida. Ele, completamente apaixonado que estava, pra atender todos os caprichos da esposa, construiu casa boa e deu a ela tudo que podia e o que não podia. Ela queria festas, roupas, viagens, joias e cristais. Ele a queria, a qualquer preço. E o preço foi alto. Perdeu dinheiro e dignidade.

Tiveram duas filhas, a vida era boa, mas uma pessoa como ela não se adaptava ao prosaico. Sua sede de viver não se contentou com a tranquilidade da rotina familiar. Logo ela se cansou e resolveu ir embora. Não cabia mais naquela existência normal. Queria mais. Deixou o marido em farrapos, que nunca se recuperou do golpe; e impingiu às filhas, por muitos anos, o mesmo abandono que sofreu.

Naquela cidadezinha não tiveram mais notícias de Socorro. Sabia-se apenas que tinha ido pra São Paulo e corria a boca pequena que fazia a vida por lá. Diziam a boca miúda que arranjou um fazendeiro rico, desfilou na sociedade e acabou por colocar um belo par de chifres no coitado, que a expulsou de casa com uma mão na frente, outra atrás. Era boato também que teve outras filhas mundo afora. A única que sabia realmente dela era a cunhada que ficou com suas filhas e as criou depois que o irmão faleceu de pesar e vergonha. Falava-se entre dentes que ela vinha às vezes ver as meninas, chegava à madrugada e partia antes do amanhecer.

Muito tempo depois, sua história já quase esquecida da memória do lugar, chega a notícia de sua morte. Morreu em São Paulo, de pneumonia. Foi um burburinho. Uns lamentaram, outros comemoraram, outros ainda se condoeram de vida tão turbulenta e sem paz. Coitada! Morta. O desaparecimento de Socorro frequentou as conversas de botequins e as fofocas de sacristia. Todo mundo opinou, relembrou sua juventude, lamentou sua trajetória tão errante. Descanse em paz Socorro e em paz deixe os seus.

Numa noite chuvosa e fria, já com a hora bem adiantada, eis que batem à porta da casa do Sr. Mauro, senhor que em outros tempos, foi alvo da paixão proibida de Socorro. Ele, que ficava até noite alta lendo em sua biblioteca, levantou-se e foi abrir a porta. Um grito de pavor acordou Celeste que correu à sala e deu com o marido caído no chão. Uma senhora bem vestida estava ajoelhada ao lado dele que já recobrava os sentidos. Assim que reconheceu a senhora, Celeste também gritou de susto. Era Socorro! Em carne e osso e mais viva do que nunca!

Assim que o susto passou e atestaram que não se tratava mesmo de uma assombração, Socorro contou que sofreu um acidente e foi levada ao hospital com ferimentos leves. Sua companheira de enfermaria era uma pobre diaba, sozinha no mundo e muito doente dos pulmões. Os médicos aguardavam sua morte, já não havia mais nada a fazer, diziam. Foi aí que teve a ideia de trocar sua identidade com a colega moribunda. Havia contraído umas dívidas e seu nome já estava meio manjado com os credores. Aí, rebatizada de Maria Auxiliadora, fugiu do hospital deixando seu nome agonizando na cama. Ela mesma não recebeu a notícia da própria morte.

E no mesmo susto que veio, tornou a partir. Anos depois morreu de verdade, pobre e sozinha. Dizem que antes de desaparecer chamou as filhas e pediu perdão. Sua vida virou lenda. Muitos que com ela conviveram na juventude custam a crer em sua índole duvidosa, tal era sua capacidade de encantar. Uma verdadeira atriz da vida real, que viveu sem limites e sem amarras e levou o amor e a dor às últimas consequências!

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