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Encurralados





Segundo o filósofo Mário Cortella, ética é um conjunto de valores que usamos para responder a três perguntas da vida: quero? Posso? Devo? Pois bem, podemos nortear nossas vidas, em qualquer âmbito, nessa definição. Nem tudo que queremos nós podemos, nem tudo que podemos nós devemos, nem tudo que devemos, queremos. Ainda segundo Cortella, temos paz de espírito quando o que queremos é ao mesmo tempo o que podemos e devemos. Simples? Se, na vida privada, precisamos estar atentos a todo o tempo, o que podemos dizer daqueles que se lançam na vida pública? A ética deveria fazer parte, nem que lá nos últimos lugares, da lista de preocupações daqueles que se propõem a serem líderes de qualquer ordem. Definitivamente não é o que vemos.

Com a proximidade de eleições gerais no país, com o mundo assistindo a estúpidos conflitos armados, com a avalanche de notícias surreais de nossos políticos, a ética parece ter desaparecido dos dicionários e da prática. Vivemos um salve-se quem puder generalizado, onde vale tudo pelo poder. Mentiras, corrupção, intolerância, arbitrariedades, impunidade, escândalos, mortes; tudo isso desfilando impunemente diante de nossos olhos que, a princípio assustados e indignados, acabam fatigados e indiferentes frente à capacidade do homem em cometer absurdos e crueldades. São tantos descalabros que, não raro, optamos por ignorar.

Esqueçamos, pois, por alguns instantes, o conflito em Gaza e a guerra na Ucrânia. Vamos nos ater ao nosso quintal, que, às vésperas das eleições e a despeito de não termos uma guerra declarada, contabiliza um genocídio silencioso e cruel, seja pela saúde pública em petição de miséria ou pela falta de segurança pública. O Brasil real, que povoa os noticiários e nos faz reféns da absoluta falta de ética de nossos governantes, certamente não será lembrado nos programas eleitorais que estão por vir, mas servirá de munição para a mídia interesseira e guiada exclusivamente pelos interesses dos grupos a quem servem. E o mais lastimável é que, passado o pleito, nenhuma garantia nos é dada, de melhores dias. O fim do túnel está às escuras. A contar do lamentável espetáculo a que temos assistido, em todas as esferas políticas, faltam-nos motivos para acreditar.

Serão milhões de reais gastos no circo que antecede as eleições. Fossem apenas os gastos declarados, já podíamos nos descabelar, mas sabemos que por trás de tão vultosas cifras, escondem-se outros tantos milhões, vindos de fontes escusas e que pagarão favores e arranjos políticos, onde o que menos importa são as necessidades do país. Portanto meus amigos, ética é tão somente um verbete, repetido incessantemente e que não encontra eco nas ações daqueles a quem depositamos nosso voto. Deve haver poucas e honrosas exceções (podemos pensar assim, num exercício desesperado de manter acesa uma ínfima esperança), mas confesso que ainda não me foram apresentadas essas raras pérolas. Homens e mulheres acima de qualquer suspeita, completamente a salvo desse mar de lama que assola o país, os estados e os municípios. Se conhecer algum, por favor, me apresente!

E é, infelizmente, nesse negro cenário, que teremos que escolher aqueles que irão conduzir nossa nação. Árdua e penosa responsabilidade para um povo ainda mal educado politicamente e tão penosamente surrupiado em suas básicas necessidades, que são presas fáceis de discursos demagógicos e inflamados associados ao poder de um marketing esteticamente perfeito, capaz de enganar até mesmo aqueles que se julgam críticos. Estamos numa sinuca de bico, ao menos aqueles que querem cumprir eticamente seu papel de cidadão. Entre escolher um nome (qualquer que seja) e perpetuar o triste panorama em que vivemos, podemos optar por nos abster da escolha, fugir da raia, lavar as mãos, e aí o drama passa a ser ético e íntimo. Posso até estar sendo muito cética, mas dessa vez estamos encurralados num beco sem saída. 



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