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Acabou! E agora?






“A gente precisa aprender a se retirar da mesa quando o amor já não está sendo mais servido.” Essa frase, da primeira vez que a li, me pareceu distante de minha realidade, a anos-luz da minha vivência de um casamento duradouro e ‘sólido’. Sempre escrevi que tudo pode acontecer com qualquer um de nós, a qualquer momento, e me incluía nesse pensamento teoricamente. Mas, fato é que na realidade, sempre nos colocamos a salvo das intempéries da vida, como se a pedra só caísse no telhado do vizinho. Comigo não foi diferente, achava mesmo que viveria para sempre aquele relacionamento de 30 anos ao qual estava, ao menos em minha cabeça, irremediavelmente acorrentada. 

Ledo engano! Por mais que a possibilidade de uma separação me rondasse, que a vida a dois já causava mais dissabor que alegrias, que já não enxergava mais o homem pelo qual eu me apaixonei aos 19 anos; hoje, 30 anos e 3 filhos crescidos depois, com uma história de crises matrimoniais recorrentes, me vejo sozinha e com a difícil tarefa de recomeçar a vida aos 50 anos. As fases que acompanham esse processo doloroso de separação são difíceis e se alternam entre alívio por ter se livrado daquele sofrimento contínuo, o pesar imenso de abrir mão de uma vida construída com dificuldades, o peso de ser responsável pelo sofrimento dos filhos, que, mesmo já crescidos, sentem a falta dos pais juntos. Uma mistura ácida de dor e culpa, saudades pelo que não pôde ser, pesar e mágoa, ressentimentos, raiva, medo. 

São muitos os fatores que acentuam a dor das mulheres que desfazem seus casamentos que eram pra vida toda. De repente, a vida é sua novamente, sem cobranças, sem satisfações a dar, sem ressalvas. Liberdade assusta e custamos a reconhecê-la. O medo da solidão é um fantasma insistente. A baixa na autoestima inevitável, nada dói mais que ser rejeitada, mesmo consciente de que a paixão e o desejo já não andavam por perto. A responsabilidade com a família nunca é igualmente compartilhada, resquícios do machismo dominante em nossa sociedade. Aí temos que ser fortes, esconder a dor na gaveta mais próxima e seguir a vida, de preferência com um sorriso no rosto! 

Depois de tantos anos juntos, custamos a nos reconhecer indivíduos singulares e inteiros. Casamento é simbiose! Quem sou eu de verdade? O que me faz feliz? Qual o caminho a seguir e que só depende do meu querer? Perguntas triviais, mas que carregam uma dificuldade enorme de resposta para quem partilhou a vida com outra pessoa por tanto tempo. A gente se acostuma a ceder, a nos resignar, a nos convencer que aquilo está bom, mesmo que não seja o que queríamos de verdade. Nos acostumamos a receber menos do que precisamos, menos atenção, menos carinho, menos amor. Nos acostumamos a cuidar sempre, a se preocupar, a se ocupar com a dor do outro como se fosse nossa. Muitas vezes a recíproca não acontece e nos acostumamos a relevar e a esconder a frustração, até de nós mesmas. Mesmo que a razão grite que aquele relacionamento é tóxico, que já não serve mais, que toda a ansiedade sentida é fruto dessa falta que toma conta da casa e da alma da gente; custamos a dar o corte, a tomar a derradeira decisão de se bastar. 

Mas... Decisão assumida e providências tomadas, se ver livre como nunca, é sensacional. A sensação de rédeas na mão e estrada em aberto é tão assustadora quanto mágica. Frio na barriga e coração aos pulos diante de novos planos, novas conquistas, novas estradas, novos personagens na história de nossas vidas. E essa é minha meta agora, me permitir! Viver novas primeiras vezes, permear a vida de momentos e pessoas leves e alegres, guardar as correntes e bagagens pesadas num canto distante e seguir adiante. As boas lembranças ficam e fazem parte do que sou; as ruins eu coloco no rol dos aprendizados. Mesmo cambaleante, numa montanha russa emocional de tirar o fôlego, a única saída é seguir em frente, buscar sentidos novos para a vida, se cercar de cuidados para se manter sã. Dizem que o tempo vai se encarregando de suavizar a dor e a confusão interna que nos assola. Aguardo ansiosa (muito)! Mas bons ventos assopram! Oxalá!

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