A vida segue, sempre segue. Trôpega, caótica, inundada de notícias aterrorizantes e atitudes questionáveis, para dizer o mínimo. Mas também segue criando e cultivando bálsamos para amenizar a dor que assola a todos, oxalá. Sim, essa dor é de todos nós, seres humanos viventes nesses tempos estranhos, dentro do planeta Terra. Ou deveria ser. Aqueles que não se sentem pertencentes ao momento estão enquadrados nas atitudes questionáveis citada acima.
Estamos cansados, exaustos. Outro dia ouvi de um especialista que o nome disso é fadiga pandêmica e que está descrito nos anais da ciência. Muitas vezes sentimos que estamos sozinhos nesse sentimento, mas não, podemos sossegar, formamos uma multidão de exaustos, tristes, ansiosos, depressivos. Tantas companhias se não nos consola, pode nos amparar. Como diz um amigo querido, viver um momento histórico não é fácil.
E falando em momento histórico, sempre digo que a humanidade dá três passos pra frente e dois pra trás. Fato. Somos (Os Homo sapiens) especialistas em repetir erros, em tropeçar nas mesmas pedras, em cair nas mesmíssimas armadilhas, pasmem, mesmo que tenhamos conhecimento teórico delas. Li recentemente o livro A Bailarina da morte, de Heloisa Starling e Lilia Schwarcz, lançado ano passado, que discorre sobre a pandemia da gripe espanhola no Brasil em 1918. Simplesmente aterrador concluir, depois da leitura, que tudo se repetiu ipsis litteris nos primeiros tempos da atual peste. As mesmas falas, o mesmo negacionismo, o mesmo desprezo com a vida da população por parte dos governantes, a mesma desigualdade social escancarada pelo vírus, o mesmo discurso equivocado sobre tratamentos precoces e etc e tal. Lamentável. Mas recomendo a leitura.
Se tudo que tivéssemos de enfrentar fossem os desafios diretos da Pandemia, já estaríamos cobertos de razões para esse cansaço crônico, porém são inúmeros os impactos indiretos dela em nossas vidas. Trabalho remoto ou presencial correndo riscos, cobranças de todas as partes para que continuemos produtivos, dinâmicas familiares alteradas, overdoses de convivências com uns, saudades imensas de outros, sensação de impotência diante do caos, perdas colossais individuais e coletivas, medo, irresponsabilidade de muitos, desgoverno, sofrimento por toda parte. Não há como nos manter alheios a tudo isso, principalmente à dor que campeia em tantas famílias.
Particularmente sigo tentando me manter resiliente e esperançosa, me cercando daquilo que me traz alegrias tímidas e incapazes de me alienar do momento, mas que acalmam meu coração. Sigo tentando fervorosamente não desacreditar na humanidade e isso dá um cansaço enorme. Deixo então as lindas palavras de Adélia Prado, que tenho certeza traduz o sentimento de muitos hoje, o meu inclusive. “Eu quero uma licença de dormir, perdão pra descansar horas a fio, sem ao menos sonhar a leve palha de um pequeno sonho. Quero o que antes da vida foi o sono profundo das espécies, a graça de um estado. Semente.” *
08.04.2021
*Poema Exausto – Adélia Prado in “Bagagens” (1993)

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