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Branco total





Clarice tem um problema com as palavras. Não no trabalho onde está sempre atenta e esbanja competência, mas é só se sentir mais a vontade que o troca-troca começa. Ela já ficou volátil e volúvel num jogo de baralho, abriu a janela para “ariar” o ar, comprou para o marido um lass faire ao invés de nécessaire, pendurou no pescoço um pingente de mármore e não de marfim, e outras tantas trocas que se perde a conta.

Dia desses Clarice saiu de uma reunião estressante no trabalho e resolveu passar em uma agência bancária para pedir umas informações. Infeliz ideia. Logo que chegou à agência ficou presa na porta giratória. A cada tentativa a porta travava. Depois de despejar quase tudo da bolsa, tirar o cinto e o celular, descobriu que era o fecho de sua bolsa que disparava o sensor. Entrou. Recompôs-se da raiva sofrida e se dirigiu ao balcão de informações:

_ Por favor, com quem eu falo a respeito de guardar dinheiro?

_ A senhora deseja abrir uma conta corrente?

_ Não, eu quero guardar dinheiro! Disse gesticulando como se guardasse algo dentro da bolsa.

_ Conta corrente? Insistiu a moça.

_ Não, conta eu já tenho minha filha. Eu quero saber a respeito daquele negócio que a gente põe dinheiro!

_ Ah! A senhora está querendo um cofrinho?

_ Não. Disse irritada com o branco que deu em sua memória._ Quero guardar dinheiro aqui no banco.

_ Por acaso a senhora deseja aplicar seu dinheiro? RDB, Fundo de renda fixa, Ações.

_Não moça, eu só quero guardar meu dinheirinho aqui e ter um rendimento pequeno no final do mês, eu esqueci o nome desse negócio! Nesse momento estava quase chorando de aflição por aquela amnésia súbita.

_ Por acaso seria caderneta de poupança? A moça disse sem esperança de acertar.

_ Isso! É isso mesmo, como eu faço para abrir uma poupança? Uma alegria quase infantil a invadiu naquele momento. Estava salva.

_ A senhora deve se dirigir ao guichê de número dois. A moça lá irá atendê-la.

_ Muito obrigada.

Ela virou as costas rapidamente e se dirigia ao tal guichê quando a moça da informação a chamou:

_ Minha senhora!

Ela pensou que para completar o vexame tinha esquecido alguma coisa sobre o balcão. Virou-se ressabiada e ouviu a pergunta que soava ao mesmo tempo deboche e solidariedade:

_ A senhora quer que eu escreva?

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