Estava ele sentado sob a sombra daquela velha árvore, pensando na vida como sempre fazia ao entardecer, quando num passe de mágica, uma ventania assustadora se instalou. Não era um furacão, ou um ciclone, mas era um vento de grandes proporções. Ali, do alto da colina, ele pôde observar o estrago causado no vilarejo logo abaixo. Casas destelhadas, postes caindo, pequenas árvores se partindo como se fossem de isopor. As pessoas correndo de um lado para o outro, procurando algum lugar seguro para se abrigarem e ele ali, paralisado diante do caos que se abatera no lugar.
O vento assim como veio se foi, deixando um rastro de destruição e prejuízos, mas a velha árvore estava ali, inteira. Tinha alguns pequenos galhos quebrados e muitas de suas folhas foram lançadas longe, mas sua estrutura estava intacta; o forte vento não foi capaz de abalar a sua essência e ela ainda foi capaz de lhe oferecer abrigo e protegê-lo do perigo.
Raul desceu a colina correndo e se juntou aos outros para tentar avaliar e consertar os estragos.
Raul cresceu, se tornou homem, e como a maioria dos jovens dali, foi embora para a cidade grande atrás do sonho de fazer fortuna e de ser feliz. Trabalhou muito, estudou, ganhou dinheiro, se casou, teve filhos, foi feliz e não mais se lembrou daquele vilarejo ao pé da colina. Vez ou outra sentia vontade de voltar, rever seus parentes que ficaram, seus amigos que regressaram. Mas a correria da vida, a preocupação e a falta de tempo o faziam desistir. O tempo foi passando e ele se esquecendo do lugar em que nasceu.
A vida passou e ele mudou, não se sentia mais tão feliz.Alguma coisa lhe faltava.Seu coração se sentia incompleto. Por mais que se achasse um vencedor, uma profunda melancolia teimava em lhe acompanhar. Sentiu uma forte necessidade de voltar ao seu lugar. Foi. Uma imensa emoção lhe arrebatou. O cheiro de sua casa que julgava esquecido reavivou suas mais doces lembranças e o abasteceu de energia. O ar puro, o céu azul, o verde que emoldurava a paisagem, tudo isso lhe trouxe esperanças e alegrias.Tinha reencontrado a felicidade perdida.
Relembrou o dia da ventania. Ao entardecer, foi caminhando até o alto da colina e ela estava lá, imponente, viçosa e exuberante. A velha árvore que na sua infância era seu esconderijo, seu cantinho secreto e um dia fora seu abrigo, havia resistido ao tempo, ao desmatamento, à seca, às queimadas e a várias ventanias iguais aquela de outrora. E só tinha resistido porque suas raízes eram profundas e eram capazes de retirar a água do seio da terra. Só tinha resistido porque suas raízes eram fortes o suficiente para a fixarem naquele solo nem sempre fértil e receptivo. Só tinha resistido porque suas raízes a permitiram se manter produtiva, dando frutos e lançando suas sementes para germinarem em outras terras.Raul entendeu enfim o motivo de sua tristeza. Abriu mão de suas raízes, e por isso não resistiu às intempéries da vida. Faltara-lhe nos momentos difíceis, uma forma de conseguir energia. Faltara-lhe o alimento da alma, o aconchego e o consolo que somente com raízes profundas e resistentes somos capazes de obter.

Emocionante o texto!
ResponderExcluirBom que minhas raizes sao muito fortes e sem duvida vao me levar de volta ao Brasil!!
Rodrigo