Eles estavam juntos há alguns meses, mas só se encontravam na faculdade ou na balada com a turma, era namoro, mas ainda não oficialmente. O fato é que aquele convite para almoçar na casa dela, para conhecer seus pais, irmãos, cunhados, avós, etc, o tinha deixado extremamente nervoso.Ele só topou, porque gostava dela de verdade, senão tinha acabado com tudo antes do convite acontecer. Cada vez que pensava a respeito, imaginava qualquer forma para se livrar daquele dia, mas nada acontecia e o dia D ia se aproximando.
Ela por sua vez, estava tranqüila e feliz. Tinha como um hábito, só apresentar namorados à família quando estava certa de seus sentimentos e do futuro da relação. E desta vez estava apaixonada, tanto que, para não constranger o namorado fez um convite informal, para um almoço comum de sábado, sem comemorações ou menu especial. Não podia imaginar que ele ficaria tão nervoso com um simples almoço.
O dia chegou. Ela acordou eufórica, mas agiu com naturalidade para evitar comentários em casa: “Nossa! A Clarinha nem dormiu direito esta noite!”, ou “Você que é o famoso Gustavo? A Clarinha não fala em outra coisa!”. Sua mãe e a Tia Eunice, que morava em sua casa, eram mestras nessas saias justas. Clara se arrumou sem exageros, querendo criar um clima casual para a visita tão esperada e aguardada por toda a família. Pediu à sua mãe que não preparasse nenhum prato muito diferente; comida normal de sábado.
Ao meio-dia a campainha tocou, era ele. Clara atendeu a porta. Gustavo trazia as mãos carregadas: flores para a mãe, vinho para o pai e bombons para ela. Exagerou na gentileza, mas tudo bem! Seguiram-se às apresentações, o pai Sr. Alberto, a mãe D.Elza, a Tia Eunice, os irmãos Zeca, Carol e Fábio. Tudo transcorria bem, conversaram sobre futebol, estudos, trabalho, economia, família, etc. Ele já estava até mais à vontade e pensando que toda aquele nervoso fora bobagem dele.
O almoço está servido! Anunciou Tia Eunice. Todos se dirigiram para a sala de jantar, a comida estava bonita, apetitosa. Nada mais poderia dar errado naquela estréia!Ele podia relaxar.Quanto ao tipo de comida não teria problema, ele sempre comeu de tudo menos bife de fígado, que ele odiava, pois quando criança teve uma anemia profunda e sua mãe o obrigava a comer fígado todos os dias, por mais de ano. Tomou horror, só de pensar seu estômago revirava de náuseas.
Sentaram-se e D. Elza muito gentil, fez questão de servir o moço: “Arroz? Feijão? Salada? Bife? Olha a quantidade! Fique a vontade, coma direito!”.Todos se serviram e quando Gustavo partiu seu bife constatou apavorado que o improvável acontecera, era bife de fígado!! Tanta carne para fazer e justamente hoje era bife de fígado! Tinha que se livrar daquele bife, senão passaria mal ali mesmo na mesa. Olhou pros lados disfarçadamente e constatou que atrás dele tinha uma enorme janela, escancarada pelo calor que fazia. Não teve dúvidas, na primeira distraída que a atenta família deu, ele lançou seu bife pela janela com a rapidez do super-homem, ninguém percebeu! Ficou aliviado e acabou de comer o restante da comida. Bem que D.Elza queria que ele repetisse, mas ele conseguiu convencê-la que já estava satisfeito, “Come pelo menos mais um bife?” Disse ela com gentileza, “Não, obrigado, estou realmente muito satisfeito”.
Depois da sobremesa, do cafezinho e do bate papo, chegou a hora de ir embora. Ele e Clara iam ao cinema. A família fez questão de levá-los até o portão. Quando atravessaram a garagem, uma visão aterradora fez Gustavo desejar ser invisível: A janela da sala de jantar ficava acima da entrada da garagem, onde estava o carro do Sr. Alberto; quando passaram pelo carro, viram que no capô jazia um enorme bife de fígado acebolado, com a gordura escorrendo sobre o pára-brisa. Um mal-estar se instalou, ninguém sabia o que dizer. Foi quando Tia Eunice, muito espirituosa disparou: “A partir de hoje, todas as vezes que almoçarmos bife de fígado voador, teremos que fechar muito bem a janela da sala de jantar, pois como vemos, o Vectra do Alberto não gosta muito desse tipo de carne!! Tchau meninos, aproveitem bem o filme!!!!”
Passados muitos anos, todas as vezes que Gustavo almoçava na casa de Clara, aquele fatídico dia era lembrado entre muitas gargalhadas; se tornou o almoço inesquecível da família Silva.
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