Foi como entrar numa máquina do tempo. A casa grande, o pomar, o terreiro atrás da casa, o paiol, o curral, a casa de Dona Dica e Sô Chico, a casa que morava com a família, tudo estava lá, igualzinho há 30 anos atrás quando Maria teve de ir embora ganhar a vida. O seu último dia na fazenda foi o mais cinzento de sua vida. Sentia um aperto tão grande no peito, uma tristeza incontrolável tomou conta de sua alma. Era o fim da inocência, da alegria gratuita, da fartura do campo, da vida simples e feliz!
Mas não queria remoer sofrimentos. Estava de volta, tinha vencido! Queria agora reviver aquele tempo. Ia saborear cada lembrança, cada passagem da época mais feliz de sua vida! E não queria perder mais nem um minuto. Pôs-se a caminhar devagar; o cheiro do mato misturava-se ao aroma do café sendo torrado no forno à lenha; a fumaça do fogão espalhava-se por toda a fazenda avisando ao paladar mais aguçado que teria festa de sabores; o sol morno de inverno aquecia sua alma; o vento frio, as folhas secas estalando no chão a cada passo, o canto dos pássaros, as vozes ao longe do povo trabalhando, a algazarra das crianças brincando; tudo isso a fez menina de novo! Aqueles sons e cheiros tão familiares lhe trouxeram de novo o aconchego do lar!!
Maria sentou-se na beira do riacho e ficou olhando o céu. Lembrou-se de quando ficavam horas deitadas, literalmente de papo pro ar, achando formas diferentes nas nuvens. Ficou ali por alguns instantes e de repente sentiu gotas de água respingarem em seu rosto, logo depois uma voz a chamou:
_ Maria!Oh, Maria! Vamos brincar na represa??
Quando ela abriu os olhos viu Lindáurea na sua frente. Ficou confusa pois ainda lembrava-se da triste morte da amiga, ainda mocinha.
_ Lindáurea?!? È você mesmo?
_ Claro que sou eu ! Vamos brincar na represa?
_ Mas....! Como isso é possível?
_ Vamos brincar? Venha Maria! _ Lindáurea parecia alheia à sua confusão. Estava alegre como sempre foi.
Maria levantou-se ainda incrédula no que seus olhos viam. Era criança de novo e usava um vestido de chita vermelha que sua mãe havia feito. Decidiu então que não perderia mais tempo:
_ Lindáurea, vamos ao pomar brincar de casinha? O dia está frio para nadarmos!
As duas correram ao pomar. Pegaram carambola, mexerica e pitanga e comeram até se fartar. Andaram pelo cafezal, foram à casa de Dona Dica “roubar” broa de milho e ouvir estórias de assombração, pularam amarelinha no terreiro de café, enfim brincaram até ficarem exaustas. Pararam e foram beber água na mina. Que delícia!! Aquela água fresca matava a sede do corpo e da alma!
Descansaram um pouco debaixo da mangueira e foram correndo atrás do Sô Chico pedir um cavalo pra passear. Cavalgaram até não mais poder, riram até dar dor de lado, falaram mais que lavadeira que perdeu o sabão! O sol se recolheu. Era hora de ir embora. Hora de brincar de brasa cada um pra sua casa, como diria sua avó Donana. Lá longe Maria ouviu alguém lhe chamar:
_ Maria, oh Maria!!! Onde você está menina!
Maria abriu os olhos. Estava lá na beira do riacho. Tinha acabado por cochilar depois da caminhada pela fazenda. Sentiu uma grande melancolia ao perceber que toda a aventura e aqueles reencontros foram apenas um sonho. Um doce sonho daquele tempo de inocência!
Quem a chamava era Bina, sua irmã, avisando que era hora do almoço na sede do Hotel Fazenda que outrora havia sido o seu lar!!

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