Outro dia, na porta da escola de meu filho de sete anos, a mãe de um colega me abordou. Trocamos algumas amenidades e ela então, num tom grave, disparou: “meu filho disse que na sala tem dois colegas que são filhinhos de papai e pela descrição que ele me fez, um deles é o seu filho”.Fiquei chocada com a forma que meu filho foi rotulado. Por um momento me senti péssima, excluída. Quase pedi desculpas a ela pelas circunstâncias que me levaram a estar financeiramente mais estável. Num primeiro ímpeto, tive a ponto de desfiar todo o rosário de nossas mazelas econômicas. Mas não disse nada, apenas fiquei matutando por que esse rótulo foi imposto.
Como uma criança de apenas sete anos já tem uma visão tão preconceituosa da sociedade? Como nós, pais, somos responsáveis pela percepção que nossos filhos têm do mundo? Será que meu filho pode ser rotulado como filhinho de papai? Aliás, o que é ser filhinho de papai?
Se for o fato de ter uma família estruturada, onde há amor, respeito e limite, sim ele é filhinho de papai! Se for o fato de ter pais que trabalham muito para conseguir dar a ele conforto e segurança, sim, ele é filhinho de papai! Se for o fato de ele ter acompanhamento em casa das tarefas escolares, sim ele é filhinho de papai! Se for o fato dele ser uma criança educada, que respeita as professoras e os colegas, sim ele é filhinho de papai! Se for o fato dele ser uma criança feliz, sim ele é filhinho de papai!
O preconceito, qualquer que seja ele, é irracional. Projetamos no outro, que é diferente de nós, todos os nossos recalques, as nossas frustrações, as nossas inseguranças e nos sentimos, por um momento, melhor que ele. O preconceito é cruel, pois aniquila todas as características da pessoa, que passa a ser somente, rica, pobre, negra, branca, deficiente, indígena, gay. Mesmo não tendo consciência de nosso preconceito, ele está subentendido em nossas reações. Pode não ser explícito, escancarado, mas está lá, esperando uma situação que o desperte. Não queremos ficar fora do grupo. Não queremos ser olhados com desprezo ou com temor. Temos uma profunda necessidade de sermos pertinentes.
Talvez, nesse caso, em algum momento eu tenha incomodado esta mãe ou meu filho ao dela, não me lembro. Talvez na correria do dia-a-dia, eu tenha inspirado arrogância, pode ser. Talvez ela estivesse amarga naquele dia, quem sabe! Talvez ainda, o preconceito estava em mim e eu o transferi para aquela situação me eximindo dessa responsabilidade, talvez!
É, somos realmente todos iguais! Somos todos preconceituosos.
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