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Dia onze

Esse texto foi publicado em março de 2004 na seção de cartas da revista Isto É. É antigo mas não deixa de ser atual.
DIA ONZE





Dia onze de março de 2004, assim como dia onze de setembro de 2001, seria um dia comum. Pessoas comuns trabalhavam, estudavam, passeavam. Pessoas comuns eram tristes, felizes, amarguradas, alegres. Pessoas comuns encontrariam seus filhos, seus pais, seus amigos, seus amores. Pessoas comuns, num dia comum, encontraram o imponderável. Num átimo de segundo suas vidas comuns transformaram-se em vítimas da irracionalidade humana. Viraram mártires de uma causa que não defendiam. Desapareceram em nome da intolerância e da barbárie. As centenas, aos milhares.
ETA, Al Qaeda, IRA, o que importa? São nomes diferentes para pessoas igualmente covardes, nefastas e infames. Matam gente inocente em nome de Deus, da pátria, da paz. Os fins não podem justificar esses meios. Destroem histórias que não eram suas, vidas que desconheciam, famílias que viviam em harmonia. Espalham o horror pelo mundo que respira mais uma vez, o cheiro podre do ódio e da estupidez!
Não há palavras para descrever tais atos. A cada explosão, um sentimento de impotência nos toma. A cada prédio destruído, carro destroçado ou trem repartido, uma profunda desesperança na raça humana ronda nossa alma. A cada pessoa assassinada por causas políticas, religiosas, econômicas ou qualquer que seja, uma sensação de indignação atormenta aqueles capazes de sentir a dor alheia. A cada atrocidade desses terroristas, a necessidade de paz se faz maior e mais urgente. Só espero verdadeiramente que carnificinas como estas não sejam capazes de banalizar nossos sentimentos em relação ao próximo e que possamos seguir acreditando uns nos outros.

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