
A coisa que mais faço em minha vida é dar aulas. São trinta e seis por semana em turmas de quase quarenta alunos, jovens, adolescentes e pré-adolescentes. O dia a dia de um professor não é fácil, ainda mais nas condições em que trabalhamos aqui no Brasil. Mas dar aulas é o que eu gosto de fazer. Acredito que tenho condições de transmitir algum conhecimento, adquirido ao longo de minha vida e de meus estudos. A escola é o lugar em que me sinto realizada profissionalmente.
Outro dia a professora de ciências do meu filho de 10 anos me pediu para dar uma aula sobre células e tecidos na turma dela. Fui. Sempre preferi lecionar para alunos mais velhos, mas as crianças me surpreenderam. Estavam todos numa expectativa apavorante, como se eu tivesse todas as respostas para suas infinitas curiosidades. Fiquei nervosa como se fosse falar para uma banca examinadora. Os olhinhos vidrados sobre mim esperando um espetáculo e eu preparada para uma simples aula. Comecei meio sem jeito, mas aos poucos o interesse deles me envolveu. Apresentei cartazes, olhamos lâminas ao microscópio e falei muito. Na hora das perguntas quase todos queriam falar. Perguntaram de tudo: “qual o nome de uma ameba?”, “para que serve o nosso cérebro?”, “por que nós temos dor de barriga?”, “quando temos células demais no nosso corpo ficamos doentes?”, “a síndrome de down é o excesso de células?”, “a AIDS mata as células?”, “por que as pessoas mais velhas ficam surdas?”. Foram várias perguntas e se dependesse de mim, ficaria lá o dia inteiro respondendo tudo.
Voltei para casa satisfeita com o resultado da aula, mas havia algumas perguntas que não queriam calar: Por que quando crescemos perdemos a nossa espontaneidade? Por que meus alunos mais velhos não me perguntam tantas coisas? Será que a escola nos moldes atuais não está podando a criatividade de seus alunos? Tenho constatado que os alunos estão cada dia mais acomodados, mais dependentes e bitolados. Ás vezes me dá vontade de entrar na sala de aula e falar um monte de absurdos, só para fazê-los reagir e questionar. A maioria engole tudo que falamos sem fazer perguntas mágicas que clareiam as idéias quando obtemos respostas, como? Porque? Para onde? Para quê? Quando?
Como eu gostaria que todos os meus alunos voltassem a ter dez anos! Como eu gostaria de passar apuros diante de uma pergunta para qual eu não soubesse a resposta! Como eu gostaria de ver brilho nos olhos deles diante de um assunto novo! Como eu gostaria de ficar nervosa diante da expectativa de meus alunos!
A verdade é que se eles não tem interesse, nós também não nos esmeramos tanto na preparação das aulas. Com o passar do tempo e o aumento das adversidades, dar aulas se torna monótono e tedioso e precisamos de uma sacudida de vez em quando. Alguma coisa que nos faça refletir sobre a nossa prática, sobre a nossa capacidade de motivar os alunos. Todo professor deveria se encontrar mais vezes com crianças, para lembrarmos o quanto pode ser prazeroso e divertido ensinar. Obrigada crianças, aprendi mais que vocês!
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