Concordo que a reprovação escolar por si só, como meio de repressão ou sem oferecer oportunidades, não é uma prática construtiva em nenhuma escola. Concordo também que crianças dos anos iniciais do ensino fundamental não tenham que conviver com o estigma da reprovação escolar. Mas não podemos generalizar e achar que a não reprovação vai resolver todos os problemas da educação brasileira, principalmente na escola pública, porque não vai e, se for instituído a promoção automática, o pouco que temos de sucesso, irá por água abaixo.
Leciono numa escola pública estadual no interior de Minas Gerais e convivemos há alguns anos com uma enorme pressão dos órgãos reguladores para que a reprovação seja banida de nossas escolas, a qualquer preço. Há muito tempo a avaliação de desempenho dos professores mineiros está atrelada ao número de reprovados e evadidos de suas turmas, como se esses problemas fossem de única responsabilidade dos educadores. Recebemos todos os anos um turbilhão de leis, resoluções, instruções e orientações para que alunos sem o menor compromisso sejam beneficiados com a aprovação. Até mesmo alunos com infrequencia superior a 75%, como dita a LDB, somos “orientados” a aprovar, reclassificar, dar inúmeras oportunidades. Estamos sendo sempre lembrados que se o número de reprovação não cair, nossa nota será diminuída, e, por conseguinte nosso prêmio de produtividade reduzido.
É óbvio que atualmente a visão do educador perante o aluno mudou. Não somos mais aqueles mestres autoritários, que reprovavam por meio ponto e não aceitavam justificativas. A educação atual é holística, consegue perceber diversas competências, valoriza a bagagem cultural de seus educandos, contextualiza conhecimentos, enfim é mais humana. Se ainda existem reprovações, são casos extremos e que fogem às mãos dos educadores.
O papel da escola moderna é educar para a vida, e muitas vezes é a única fonte de limites que os alunos têm. Não raro os professores assumem o papel de pais, assistentes sociais, psicólogos, por serem a única referência de valores para crianças, adolescentes e jovens. Como podemos então esperar que esses mesmos jovens, perpetuem valores reais de certo ou errado, cumpram suas responsabilidades, aprendam a cumprir regras e que sigam a lei do país se nem mesmo a lei maior da educação brasileira, a LDB, é cumprida pelo Ministério da Educação? Como vamos dar limites aos nossos alunos se não podemos exigir que cheguem no horário, se não podemos cobrar o uso do uniforme, se não podemos dar aos alunos a nota que eles mereceram? É preciso urgente repensar esses excessos de paternalismos. Estamos formando cidadãos frágeis, incapazes de suportar frustrações e pior, incapazes de perceber que a vida não dá tantas chances como a escola.
Temos sim que acabar com a repetência escolar e com a evasão, que perpetuam o cenário de exclusão social que tanto nos aflige. Mas que isso ocorra de fato e não por decreto. Somente com investimento pesado em infraestrutura, valorização e capacitação de profissionais da educação e reorganização de currículos nas universidades podemos de fato melhorar o ensino no Brasil. Não podemos importar modelos internacionais sem copiar também os investimentos. Enquanto a realidade das escolas brasileiras não for tratada sem hipocrisia e a educação não for prioridade máxima do governo, os avanços serão ínfimos.

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