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Encasquetei




Tenho mania de encasquetar. Quando cismo com alguma coisa, sugo o máximo daquilo, até acabar ou enjoar, depende. Ultimamente encasquetei com a poetisa Adélia Prado. Nunca fui muito de poetar, apesar de ter tido meu caderninho de poemas adolescentes, mas a poesia não me chamava. Resolveu me buscar agora, depois de madura. Talvez esteja precisando de menos objetividade na vida, sei lá. Já li alguns livros de Adélia, vi entrevistas, li poemas na internet e me deu uma enorme vontade de conhecê-la. Quando penso que ela mora aqui do lado, bem pertinho, aí que a vontade aumenta. Quem sabe... Pode ser um projeto em curto prazo.

Mas essa vontade que me bateu, meio de repente, me lembrou um fato parecido que protagonizei na minha tenra infância. Estudava em uma escola em BH chamada Instituto da Criança. Lá fazia a antiga segunda série e desde o ano anterior os livros que seguíamos eram o Barquinho Amarelo e Brinquedos da Noite, de Ieda Dias. Amava aqueles livros, ainda tenho um deles comigo. Sonhava acordada com o algodão que brotava branquinho, com o barquinho descendo o rio, com toda aquela liberdade que Marcelo, Marquinho e Rosinha desfrutavam naquela vida bucólica de fazenda. Talvez tenha sido a primeira vez que fui tocada pela literatura. O fato é que, numa visita à Carmo da Mata, meu pai contou que Ieda Dias era daqui e que ele a conhecia dos tempos de juventude. Endoidei. Lembro-me do sentimento de incredulidade que me abateu. Como? A escritora morava em Carmo da Mata? Conhecia meu pai? Na minha cabeça de criança uma escritora era coisa importante demais, com nome impresso na capa de livro, inacessível, uma artista! E artistas a gente via só na TV. Pois bem, encasquetei de conhecê-la e meu pai me levou até sua casa. Como já se fazem uns bons anos do acontecido, não me lembro de detalhes do encontro. Não lembro se conversei, o que perguntei, pois era uma criança tímida. Mas lembro da sensação que tive ao percebê-la tão comum, tão igual a todo mundo que conhecia. Não tinha estrela na testa, não tinha roupa dourada, não tinha nada que a apontasse: lá vai a escritora, a artista, aquela que tem nome impresso em capa de livro! 

Não foi decepção, foi a constatação que as coisas que nos tocam, às vezes profundamente, cabem em pessoas absurdamente comuns, prosaicas, igual a nós.

Salve Iêda Dias! Salve Adélia Prado!




Comentários

  1. Nossa, Júnia! Que emocionante! Hoje a escritora é você, tem textos publicados, escreve maravilhosamente...Parabéns!!!!

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