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Hecatombe







Parece que foi ontem, mas já faz dez anos. Uma década atrás o mundo conhecia a fúria e a ousadia macabra do Al Qaeda. Até então, Osama Bin Laden era apenas um nome estranho de alguém mais estranho ainda. Lembro-me como se fosse ontem meu filho de sete anos me gritando para ver aquilo que parecia uma fatalidade, um incêndio acidental ou uma explosão qualquer no edifício mais famoso do mundo. Passamos alguns minutos diante de imagens sem legendas e sem narração, pela total impossibilidade de se saber o que havia acontecido. Penso que como eu, ninguém em sã consciência pensou em atentado, no máximo um acidente aéreo desastrado. Mas o imponderável aconteceu diante dos olhos de um mundo perplexo e paralisado: outro avião se despedaçava no outro edifício famoso, norte e sul, fogo, morte, desassossego, incredulidade, horror. Veio a notícia, estávamos ao vivo diante do maior e mais terrível atentado terrorista da história da humanidade. Em minha opinião perde para os requintados atos de terror praticados na Alemanha nazista, mas em espetáculo pirotécnico de desumanidade e pelo impacto causado pela transmissão em tempo real, não há concorrência.
Hoje, uma década depois, as imagens exaustivamente repetidas em razão desse lúgubre aniversário, me levam a pensar, em cada um dos quase três mil mortos nesse holocausto do 3º milênio. Não eram ativistas políticos, nem religiosos radicais, nem militares em guerra, tampouco eram contra o islã, ou talvez fossem tudo isso, mas naquele momento eram apenas cidadãos americanos, num dia comum, prosaico. E naquele dia, se tornaram mártires anônimos da intolerância, da ignorância, e da barbárie. Atiraram-se aos braços da morte, fugindo do inferno sem explicação, sem nexo, completamente ilógico e inesperado. Desapareceram deixando histórias únicas e inacabadas em nome de uma política e um político sem escrúpulos, que não respeita o território alheio e em nome de seus interesses, transforma o mundo inteiro. A conta foi paga por aqueles que não a fizeram. Resta-nos agora desejar que as cenas, vistas e revistas, nunca se repitam. E que outros Georges e outros Osamas não regressem ao poder. Utopia? Pode ser! Mas não posso me dar ao luxo de perder a fé na humanidade, com pena de sucumbir à dor de fazer parte dela.

Texto publicado no Jornal O Tempo, dia 10/09/2011.

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