Pular para o conteúdo principal

Limpando gavetas




Tenho o hábito de arrumar os armários e gavetas nos primeiros dias do ano. E assim tenho feito. Tirado papéis velhos, contas antigas, caixas de presente que sempre pensamos poder precisar, embalagens interessantes que podiam nos ser úteis um dia, roupas que guardamos e pouco usamos, aquele jeans que apesar de não servir mais guarda a esperança de uma silhueta mais enxuta, sapatos gastos pelos passos da vida. Faço uma varredura em todos os espaços onde possa haver algo que não mais terá serventia. Claro que sempre sobra alguma coisa, mas são muitos quilos de papel velho que vão para o lixo.
E assim tenho procedido com a alma. Limpando gavetas e nichos de sentimentos que não tem mais serventia. Extirpando mágoas, raivas, ressentimentos; fortalecendo alegrias e ternuras, revendo conceitos e valores. Fazendo uma faxina e reorganizando emoções e relações. Priorizando sempre aquelas ligações que nos fazem sentir melhor, que nos fortalece e nos conforta. Descartando outras, que nada nos acrescenta ou não eram tão verdadeiras quanto pensávamos. É um exercício de desapego e nessa labuta percebi o quanto nos apegamos mesmo àquilo que não nos serve ou nos faz mal. Fazemos nossas prisões e nos libertar delas requer coragem, perseverança, humildade e sabedoria. Coisas que aprendemos com o tempo. Comecei a caminhada!
E o tempo é sábio! Tira-nos o frescor da juventude e a urgência da adolescência, mas nos concede clareza de pensamentos e mais serenidade nas emoções. Já ouvi tantas pessoas falarem: “Queria ter o corpo de 20 anos, mas com a cabeça de 50!” Bobagem. Ser jovem é olhar a vida e querê-la, seja como ela for. Mas acredito que os jovens precisam de uma ousadia que a maturidade não permite mais. A vida é feita de etapas, e temos que cumprir todas, sem pular nenhuma. Assim como as frutas que amadurecem na marra se perdem mais facilmente, nós também nos fragilizamos quando a maturidade chega antes da hora. A natureza sabe o que faz!
Portanto sigamos o curso da vida, com aceitação e tranquilidade. Retirando o ranço e o mofo que as coisas inúteis carregam. Limpando as gavetas e a alma, deixando espaço pro novo, que mesmo que nos assuste, sempre traz algo para nos surpreender!

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Quem somos nós?

  O que te move na vida? O que faz com que você se levante todos os dias? Trabalho? Família? Sonhos? Muitas vezes me pego pensando sobre o sentido de existir. Aliás, esse pensamento é uma de minhas obsessões e hoje me deparei com um poema da autora Michaela Schmaedel, que me trouxe novamente essa reflexão “ Tem de ter algo/mais nessa vida/do que trabalhar/doze horas por dia/depois sentar-se no/beiral do abismo e/descansar do cansaço extremo ”. Estamos inseridos em um tempo no qual valemos pelo que produzimos. Somos identificados pela nossa atividade profissional. Em qualquer espaço que precisamos nos apresentar, falamos nosso nome e o que fazemos para pagar os boletos. No mundo capitalista só existimos se contribuímos para a máquina de moer gente funcionar e à medida que diminuímos nossa produção, estaremos prontos para o descarte. Se somente a produção importa, quem somos nós para além de nossas atividades profissionais? O que sobra de cada um de nós quando não podemos mais ...

“Qual a sua responsabilidade na desordem da qual você se queixa?”

Outro dia me deparei com essa frase de Freud: ‘Qual a sua responsabilidade na desordem da qual você se queixa?’, e esta me atingiu feito um raio e me fez pensar e refletir sobre a mania que temos de nos queixar apenas. De tudo e de todos. Em casa, no trabalho, no lazer. Jogamos ao vento clamores e queixumes, muitas vezes tolos, e nos apiedamos de nós mesmos, pagando de vítimas indefesas, não raro, de nossas próprias escolhas. Reclamar é mais fácil que tomar a decisão de mudar o que nos incomoda. Que atire a primeira pedra quem nunca se comportou assim! Eu não ouso. Se olharmos bem lá no fundo, excetuando-se catástrofes naturais ou acasos trágicos, todas as desordens que vivemos são apenas consequências daquilo que fizemos antes, conscientes ou nem tanto, esperando ou não esses resultados. “A toda ação corresponde uma reação de igual (ou maior) intensidade e sentido contrário”, Terceira lei de Newton, lembra? Pois bem, a vida segue essa e outras leis e estamos todos a mercê d...

Exaustos

    A vida segue, sempre segue. Trôpega, caótica, inundada de notícias aterrorizantes e atitudes questionáveis, para dizer o mínimo. Mas também segue criando e cultivando bálsamos para amenizar a dor que assola a todos, oxalá. Sim, essa dor é de todos nós, seres humanos viventes nesses tempos estranhos, dentro do planeta Terra. Ou deveria ser. Aqueles que não se sentem pertencentes ao momento estão enquadrados nas atitudes questionáveis citada acima. Estamos cansados, exaustos. Outro dia ouvi de um especialista que o nome disso é fadiga pandêmica e que está descrito nos anais da ciência. Muitas vezes sentimos que estamos sozinhos nesse sentimento, mas não, podemos sossegar, formamos uma multidão de exaustos, tristes, ansiosos, depressivos. Tantas companhias se não nos consola, pode nos amparar. Como diz um amigo querido, viver um momento histórico não é fácil. E falando em momento histórico, sempre digo que a humanidade dá três passos pra frente e dois pra trás. Fato. So...