Texto publicado no livro Cronicidades.
Ele, amigo prestativo e companheiro, ficara responsável por pegá-la e levá-la ao seu derradeiro e definitivo lar. E assim ele fez, por mais que aquela perda o magoasse, Carlos foi ao crematório pegar as cinzas de sua grande amiga Maria.
Ela que sempre fora alegre, de bem com a vida, naturalista, vegetariana, protetora da natureza e amante dos animais, estava ali em uma pequena caixinha. Todos os seus sonhos, seus feitos, seus amores, suas dores, enfim tudo que estava relacionado a ela estava ali, na sua frente, representados naquele momento por aquela urna repleta de pó.
Ele que é cético e se autodenomina ateu, ficou ali por alguns instantes, parado, perplexo diante das cinzas de sua querida amiga: “Mas é só isso? pensou. Ela tão escandalosamente marcante, com seu sorriso largo, sua graça explícita, coube nesta caixinha tão pequena, repleta de um pó tão cinza?”
A morte , por maior alívio que traga àqueles que sofrem, é sempre quase que impossível de aceitar, ainda mais assim, tão rápido, tão inesperado, ceifando uma vida tão tenra ainda.
Mas, ele tinha uma tarefa a cumprir. Levaria sua amiga de volta, ela que se aventurou em terras tão distantes, voltaria definitivamente, se misturando a terra onde nasceu.
O caminho era longo! Foram de ônibus, daqueles que param em todos os pontos para baldear os passageiros; eles também teriam que descer em uma cidade anterior para trocar de carro.
O calor estava escaldante, o sol da tarde estava a pino, ele se banhava em suor naquela rodoviária abafada. O ônibus ainda demoraria um pouco a partir; ele então se sentou à mesa de um bar, colocou sua amiga cuidadosamente ao seu lado na mesa e se lembrou o quanto ela gostava de viver! Pediu então ao garçom uma cerveja bem gelada e dois copos; encheu os copos com calma, brindou em homenagem a Maria e bebeu, matando a sede e a saudade, pela última vez em sua companhia!

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