
Do amor ela só tinha ouvido falar. Chegou a não acreditar em sua existência, tal o medo que sentia de sofrer uma desilusão. Evitava se aproximar demais das pessoas, não queria se mostrar inteira, desnudar seus sentimentos, se entregar cegamente a um amor. Queria sempre ter o controle. Apavorava-se somente com a hipótese de se entregar a um impulso, sem medir e pesar todos os prós e contras. A razão sempre deveria comandar o coração.
De repente, sem que o pensamento pudesse controlar, aquele sentimento tão temido começava a brotar dentro dela. No início foi só uma sensação de felicidade sem motivo aparente. Um otimismo desenfreado tomou conta de seus pensamentos. Tudo a sua volta ficou mais colorido e mais bonito! Detalhes do mundo, que nunca tinham chamado sua atenção, começaram a pulular na sua frente. O pôr do sol, o canto dos pássaros, o cheiro da terra molhada depois de uma chuva de verão, o arco-íris, a beleza das flores. Não podia negar, a vida ganhou um novo sentido!
Começou a sorrir à toa, a cantarolar o dia todo. Várias vezes se pegava sonhando acordada com o dia que o encontraria. Pensava em tudo, o que falaria, os carinhos que ia fazer-lhe, como ele se comportaria. Era um sentimento arrebatador, que a tomava com uma força incontrolável, invadindo seu íntimo, confortando sua alma, tranqüilizando seu coração aflito e carente. Não se sentia mais sozinha; aquele amor preenchia todos os cantos de seu coração.
Às vezes, no entanto, aquela alegria sublime dava lugar a uma apreensão angustiante. Um frio percorria-lhe a espinha só de pensar em alguma coisa não dar certo: e se ele não gostar de mim... E se eu não souber cuidar direito desse sentimento? E se eu não estiver preparada para esse momento tão especial? Dava vontade de voltar àquela vida completamente previsível, mas sem sobressaltos.
Mas agora não tinha mais volta, estava repleta do mais profundo amor. Seria capaz de tudo por aquele sentimento. Nada poderia ser mais importante que aquele encontro que o destino providenciaria, mais dia menos dia.
Enquanto aguardava, se nutria daquela sensação de poder que o amor nos confere. Curtia cada aproximação. A cada vez que podia vê-lo, mesmo de longe, uma emoção a levava às lágrimas. A cada dia a presença dele ficava mais forte e mais necessária.
Com o tempo os medos deram lugar a certezas e as dúvidas se transformaram em vivências. Falava sozinha na esperança dele a ouvir: Eu te amo... Eu te quero muito... Você é o amor de minha vida... O dia que você quiser vir estarei a sua espera, sempre! Não poderia mais viver sem a expectativa de te encontrar e de viver com você... Quero participar de sua vida, de suas conquistas, de suas alegrias, de suas tristezas! Preciso dividir com você meus planos, minhas vitórias e meus ideais! Quero te ajudar a ser feliz! Quero ser feliz a seu lado!
Um dia ele avisou, viria ao encontro dela! Ela ficou ansiosa. Preparou-se tanto, ensaiou tanto e agora as palavras lhe faltavam. Torcia as mãos trêmulas numa mistura de alívio e de dor! Alívio pela espera ter chegado ao fim e dor pela perda do conhecido. A partir dali não dependeria somente dela, seria uma troca de verdade. Tudo que sonhara durante tanto tempo se transformava em realidade.
Ele chegou lindo, forte, perfeito! Choravam os dois, copiosamente. Ele assustado com a vida nova que teria de agora em diante. Ela de alegria, de medo, de ternura, de prazer, de emoção, de pavor e de gratidão à vida, por ter lhe dado a chance de renovar suas esperanças, tendo em seus braços o filho tão sonhado!
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