Há três anos, numa escola de Belo Horizonte, vivenciei um episódio que retrata bem a atual ralação entre família e escola. Tinha um aluno de 6º ano, que vou chamar de José, em idade regular (ou seja, 11 anos), que apresentava um comportamento muito preocupante. O menino era agressivo, rebelde, não conseguia seguir as normas da escola, desafiava os professores, ameaçava bater nos colegas caso estes não fizessem o que ele queria, enfim...era um aluno problema igual a tantos que existem em todas as escolas. A mãe era insistentemente chamada na escola e nunca aparecia alegando compromissos profissionais. O pai também não gostava de se aborrecer com problemas de escola do filho, apareceu apenas uma vez, e deixou de atender os telefonemas da escola a partir de então. Ou seja, o José era problema nosso.
Lembro-me que um dia, depois de mais uma desavença na sala de aula, a supervisora e eu fomos tentar conversar com ele que estava em prantos e muito nervoso. Ele nos contou que era o caçula de três irmãos, que ficava o dia todo sozinho em casa, que seu pai tinha um restaurante que consumia todo seu tempo e que ele praticamente não via a mãe, pois quando ele saía pra aula ela ainda dormia e como chegava tarde em casa não o pegava acordado. Nesse dia ele afirmou que não conversava com a mãe há uma semana. Pouco tempo depois, ficamos sabendo na escola que o menino era o terror do prédio em que morava e que ele já estava com o nome na Promotoria da Infância e Juventude.
Só para constar, José morava em um bairro de classe média alta, ia pra escola com mochila e tênis caros, portava um aparelho celular de última geração e sempre carregava bastante dinheiro pra comprar merenda no recreio. E foi exatamente o telefone celular do garoto que protagonizou o episódio em questão. Pois bem, era uma sexta-feira e estava dando aula na turma do José. Ele pra variar não fazia as atividades e começou a filmar a aula com seu celular. Pedi a ele que guardasse o aparelho várias vezes e como não fui atendida recolhi o telefone e entreguei para a diretora, que ficou de devolver ao fim da aula. Não sei por que cargas d’água o celular não foi devolvido e acabei por esquecer o acontecido durante o restante do turno.
Na segunda-feira seguinte, 7 horas da manhã, a mãe de José (aquela mesma que nunca podia aparecer na escola pra resolver o problema do filho) estava lá e acompanhada de um advogado. A mulher estava possuída! Falou barbaridades com a diretora. Disse que era um absurdo a escola ter tomado o celular de seu filho, que era um aparelho caro, que ela precisava do celular para se comunicar com o garoto e blá, blá, blá, blá. O advogado, que era tio da criança, disse que ia processar a escola e fez mais um monte de ameaças. Depois que eles falaram tudo que queriam, chegou a nossa vez. Falamos pra mãe todos os contratempos causados pelo José, que o menino havia contado que praticamente não encontrava com ela, e que talvez ele estivesse pedindo socorro com aquele comportamento. Falamos para o advogado que a mãe nunca tinha pisado na escola, apesar de ter sido chamada milhares de vezes, e contamos todas as barbaridades cometidas pelo aluno desde o início do ano. O advogado, ao fim da conversa, ficou perplexo com tudo que contamos. A mãe pôs panos quentes, disse que o menino exagerava nas queixas e que era sim uma mãe presente. Pouco tempo depois ela tirou o garoto da escola.
Igual ao José, temos milhares de crianças abandonadas e menos importantes para seus pais que um telefone celular. Crianças que recebem muitos presentes e pouca presença. Meninos e meninas que não são contestadas em seus desejos e recebem tudo que pedem, pois dizer não dá trabalho e educar exige tempo e dedicação, ceder é mais fácil.
Crianças que crescem sem noção de afeto, de limites, de respeito. Na grande maioria das vezes, são crianças que gritam por socorro e esses pedidos desesperados por um mínimo de atenção, se transmutam em agressividade, violência, rebeldia, delinquência, drogas. As causas desse abandono podem ser muitas, mas as consequências são bem previsíveis.
A escola não tem a função de educar e sim de ensinar. Claro que pelo processo de ensinar perpassam valores, exemplos, afetividade, regras e tudo isso contribui na formação de uma pessoa. Mas o aluno passa e o filho é para sempre. Portanto, não transfira para a escola de seu filho a responsabilidade que é sua, pai e mãe.
Não se constrói uma casa sem antes fazer a fundação, o alicerce. Não se ensina palavras e coisas a quem não aprendeu em casa a se entender como alguém que merece atenção e cuidado. Nascemos, vivemos e morremos na família. Passamos pela escola.
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