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Pura adrenalina


Fobia é coisa séria. Não é um medinho bobo, é paúra, desses que deixam o bom senso e a razão a anos-luz de distância. O medo de verdade paralisa, e provoca situações trágicas, mas que podem se tornar cômicas depois de algum tempo. Pois bem, vamos aos fatos.

Ele é falante, comunicativo, espirituoso e um tantinho sem noção. Mas é um bom cara, tem um bom coração e é cheio de boas intenções. Dia desses, foi convocado a fazer uma entrega numa cidade do interior. Um trabalho extra que lhe renderia uma remuneração bacana. Só que tinha um detalhe, teria que ir de avião. E para a cidade em questão, não há Boeing, a rota é feita com aeronaves pequenas. Ele titubeou. Tem um medo danado de voar.

Pensou mil vezes em desistir, mas a grana era boa e chegaria em boa hora. Aceitou. A noite anterior passou em claro temendo o que viria no dia seguinte. Levantou cedo, se arrumou e foi. Chegou cedo ao aeroporto, comprou umas revistas para tentar se distrair e umas pastilhas de hortelã para esquecer-se dos cigarros pelo tempo necessário. Embarcou. Ajeitou-se no assento da janela na esperança de que a paisagem lhe acalmasse ou ao menos lhe indicasse que permanecer ali seria inevitável. Antes da decolagem ainda pensou seriamente em sair dali correndo, mas resignou-se.

O voo durou 2 horas. Sem dúvidas, as piores de sua vida. A tensão era tamanha que suas mãos estavam dormentes de apertar o apoio de braço, o suor gelado escorria debaixo da camisa e suspeitava que toda a aeronave conseguia ouvir seus batimentos cardíacos. Estava mais branco que fantasma e seu corpo era um tonel de adrenalina. Enquanto o avião taxiava na pista, ele recolheu sua bagagem ignorando as recomendações da comissária de permanecer preso em seu assento. Seu único pensamento era de sair dali o mais rápido possível e nunca mais entrar numa furada semelhante.

Quando as portas da aeronave se abriram ele não teve dúvidas. Como já estava com todos seus pertences em mãos, seria o primeiro a dar o fora, a por os pés em terra firme e não haveria ninguém que lhe impediria. Bem que a comissária tentou, gritou como uma louca que ainda não saísse. Em vão. Ele passou pela porta como um raio e...se estabacou na pista! Foi um auê. Um berreiro danado de todos os lados. Uma correria. Na pressa de se livrar daquele pavor, ele não percebeu que as escadas ainda não estavam posicionadas.

Antes que alguém se aproximasse, ele, aturdido com o inusitado tombo, levantou-se de um salto, sacudiu a poeira da roupa e foi-se, ignorando os apelos para que esperasse os paramédicos. Passou pelo saguão do aeroporto sem olhar para os lados. Entrou no primeiro táxi que avistou e seguiu para o hotel.

Somente depois de passado o tormento e o efeito hormonal do medo e do susto é que as dores chegaram. Uma dor aguda, do lado esquerdo, que o impedia de se virar na cama. Voltou pra casa de ônibus leito, 10 horas de viagem, três costelas quebradas e a certeza de que o medo é insubornável.

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