Uma sucessão de equívocos e descasos, que acontecem todos os dias em diversos lugares do Brasil, pôs fim à vida de mais de duas centenas de jovens em Santa Maria/RS. Uma tragédia de proporções gigantescas, uma casa dos horrores, um acontecimento funesto para nosso país. Foi lá, mas podia ter sido em qualquer lugar onde existe uma casa de festa ou show que não segue as recomendações previstas na legislação. Sim, porque o que mais vemos nesse país são formas de driblar a lei e aplicar o famoso jeitinho brasileiro.
Quem de nós, ao entrar em uma casa noturna para assistir a um espetáculo, vai fiscalizar se há saídas de emergência, se o revestimento acústico é feito com material seguro, se a estrutura do prédio está em boas condições, se existe um sistema eficiente de ventilação? Ninguém. E não é mesmo de nossa alçada fazer isto. Quando entramos em um lugar qualquer para nos divertir, acreditamos que tudo isso foi checado por aqueles que o deveriam fazer.
Aliás, em todos os momentos de nossas vidas, estamos sempre acreditando que todos fazem sempre o melhor em suas especialidades. É assim quando precisamos de atendimento médico e confiamos nossa saúde nas mãos de médicos e enfermeiros. É assim quando entramos numa escola e confiamos nosso aprendizado nas mãos de educadores. É assim quando entramos em um avião e confiamos nossa existência nas mãos do comandante. E assim a teia se dá e estamos sempre dependendo da consciência e da competência alheia.
Nós, seres humanos, sofremos de uma síndrome incurável. Acreditamos que a pedra só cai no telhado do vizinho e que conosco nada de mal irá acontecer. Somos imprudentes, displicentes e até inescrupulosos, e quando algo dá errado, ficamos procurando um bode expiatório pra assumir a responsabilidade que é nossa. Leis não se cumprem, trabalhos não se realizam, fiscalizações não se concretizam e não raro, o dolo recai sobre as próprias vítimas.
O horror que chocou o país numa madrugada de janeiro, não foi uma fatalidade. Se não há culpados por ações, com certeza haverá por omissões. Como uma casa noturna com capacidade para duas mil pessoas funcionava com alvará vencido há seis meses? Como uma banda experiente pode realizar efeitos pirotécnicos dentro de um ambiente fechado e cercado por materiais inflamáveis? Como essa casa teve autorização para funcionar tendo apenas uma saída e sendo tão mal sinalizada?
O fato é que mais de duzentas famílias foram feridas de morte e pra essa dor não há remédio. Milhares de jovens tiveram suas vidas marcadas para sempre e o alívio só o tempo poderá trazer. Nesse momento assistimos autoridades nacionais e internacionais se solidarizando com as famílias das vítimas. Mas espero do fundo do coração, que a tragédia de Santa Maria não tenha sido em vão, e que não seja esquecida. Que nunca mais tenhamos que chorar a perda de vidas tão tenras, que sucumbiram à incompetência, ao descaso e à desvalorização da vida!
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