Gostava de brincar de cientista. Devia ter uns doze anos quando ganhei de presente um kit laboratório, e esse foi meu passatempo preferido por um bom tempo. Amarrava o cabelo num rabo de cavalo, colocava um avental e me trancava na sala de casa guarnecida de meu microscópio ótico, lâminas com fatias de cebola e outros vegetais, um abajur para facilitar a visualização, tubos de ensaio com reagentes químicos e por lá passava horas a descobrir as células, os detalhes de pequenos insetos e outras tantas coisas que me davam na telha. Sentia-me o máximo com aquela parafernália toda e com um look de salvadora do planeta. Bons tempos!
Sempre me interessei pela vida e suas perfeitas engrenagens. Acompanhava um programa de TV chamado Vida Animal e que mostrava os hábitos e curiosidades de animais selvagens. Colecionava revistas National Geographic. Na época a ecologia ainda não era popular, computador era ficção científica e internet era coisa inimaginável. Nossas companheiras mais próximas eram as pesadas enciclopédias que enfeitavam as estantes e nos salvavam nos trabalhos escolares, escritos durante dias em papéis almaços.
Lembro que além de cientista, aspirei ser bailarina, médica, jornalista, psicóloga. Mesmo depois de ter sido fisgada no visgo do magistério, quase optei pela História, que também me enche os olhos até hoje. Mas acho que aqueles tempos brincando de cientista, me levaram à Biologia. É um curso fascinante! Mesmo num tempo pré-tecnológico (para dirimir qualquer dúvida, não sou tão velha assim, foi a tecnologia que se desenvolveu muito em pouco tempo, ok?), onde os livros ainda eram os melhores aliados e a última maravilha ao nosso alcance era o fax, as descobertas foram incríveis!
Tive professores famosos na faculdade, estrelas da ciência. Tive outros mais modestos, mas igualmente inspiradores. Mas o que me encantava mesmo era o conhecimento. Anatomia, citologia, paleontologia, genética, biologia celular, evolução! Tudo se encaixando e fazendo sentido. Todas as peças do quebra-cabeça da vida sendo desvendadas a cada semestre. Aprendi a entender porquês, a explicar a natureza. Aprendi que nenhuma espécie vive em vão e que nosso planeta é uma corrente cheia de elos indispensáveis, e que quando algum deles se rompe, todos estão em perigo. Aprendi que as verdades são mutantes e que por mais que saibamos, ainda não sabemos quase nada.
Penso que poderia ter me tornado uma cientista de verdade, viver entre experimentos e aventais. Mas descobri que meu laboratório preferido chama-se escola. Ainda acompanho todas as novidades e descobertas científicas com a mesma fascinação de antes. Sigo sempre que posso, programas de TV sobre vida animal e leio muitas matérias de revistas sobre ciência. Hoje muitas das verdades aprendidas quando estudante já evoluíram e muitos projetos científicos da época já são realidades banais. Ainda procuro aprender mais, mas agora, além de querer saber, quero compartilhar e inspirar jovens na busca pelo conhecimento.
É interessante refletir sobre as escolhas que fazemos em nossas vidas. Muitas delas só entendemos mais tarde, quando lançamos um pouco de luz nas pistas que deixamos e conseguimos ver algumas pegadas. Não me arrependo das escolhas que fiz. Acho que quando olhamos pra trás com carinho e ternura, é sinal de que pegamos a estrada certa!
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