
Fui frequentadora de estádios de futebol quando criança. Na falta de filhos homens, meu pai me levava com ele para assistir aos jogos do Galo no Mineirão. E eu adorava! Gritava e vibrava como um moleque, saía de lá completamente rouca e sentia-me realizada ao final do espetáculo. Lembro-me que várias vezes íamos de geral, junto com a massa alvinegra e não tenho nenhuma lembrança de incidentes ou problemas. Era pura alegria. Apesar do estádio lotado, não sentia medo. Sabia que acabado o jogo, voltaria pra casa sã e salva, como deve ser.
Naquele tempo estádio de futebol era lugar de lazer. A torcida fazia performances e criava hinos em louvor a seu time. A entrada dos jogadores em campo era de arrepiar! Crianças, mulheres e idosos dividiam pacificamente o mesmo espaço dos jovens e das torcidas organizadas. Todos estavam lá para se divertirem e assistir seus ídolos jogarem. Se ganhavam, ficávamos eufóricos e alegres. Se perdiam, o máximo que acontecia era xingar o juiz ( ou a mãe do coitado!) ou vaiar o time adversário para extravasar a frustração. Bons tempos que precisam voltar!
O episódio protagonizado pelos torcedores do Corinthians em Oruro, apesar de tantas especulações, não foi pior do que ocorrem todos os finais de semana nos estádios brasileiros. Em uma análise objetiva, talvez tenha sido apenas uma fatalidade, não houve intenção de matar. Por aqui, nos acostumamos a ver uma infinidade de agressões premeditadas, mortes estúpidas, demonstrações bárbaras de fúria e insensatez. Malfeitores travestidos de torcedores que fazem da violência gratuita o objetivo das tardes de domingo. O garoto de 14 anos morto na Bolívia foi mais uma vítima da ignorância. Muitas outras se espalham Brasil afora.
E quem são os responsáveis? O time, os cartolas, as torcidas organizadas, a CBF, a FIFA, a segurança dos estádios? Talvez todos tenham sua parcela de culpa. Talvez seja preciso consultar e copiar medidas adotadas em outros países como a Inglaterra, que por muitos anos enfrentou a violência dos hooligans. Talvez esteja passando da hora de um tratamento de choque contra os vândalos, que transformam o esporte mais popular do país em uma arena de gladiadores do ódio e da intolerância.
Acredito que a discussão sobre o caso de Oruro seja muito maior que apontar o culpado pelo uso do artefato que matou o jovem torcedor do San Jose. É preciso que seja a gota d’água que derrame toda a impunidade e a benevolência com que são tratados aqueles que instauram o terror nos estádios de futebol e usurpam de milhares de famílias, o direito de darem a seus filhos experiências e lembranças felizes como as que eu vivi naquelas alegres tardes de domingo e futebol!
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