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Labirintos





“Uma boa definição de felicidade: ser leve para si mesmo.” Esta frase da escritora gaúcha Martha Medeiros, talvez seja o caminho que tanto procuramos e, muitas vezes, não encontramos nos labirintos de nossa existência. Leveza! Diminuir o peso, aprender a não carregar como nossos os fardos e problemas alheios, deixar as mágoas e os rancores pelo caminho, jogar fora aquilo que não é necessário e que não nos acrescenta; não gastar energia com o que não vale a pena e principalmente saber identificar prioridades. Oxalá fosse simples! Mas não é impossível, basta uma pitada de boa vontade, algumas colheres de lucidez e sensatez, porções de atenção e amor-próprio e uma generosa quantidade de autoconhecimento.

Se pararmos pra refletir, muito do que rouba nossos sorrisos, não nos pertence. Claro que devemos sempre ser solidários com aqueles com quem convivemos e amamos e se pudermos ajudar oferecendo um ombro, um sorriso, um colo ou uma palavra amiga, isso só nos trará alegrias. Mas muitas vezes o nosso sofrimento, as nossas amarguras e dissabores são construídos por nós mesmos, quando delegamos a outros a tarefa de nos fazer felizes, quando esperamos que o outro adivinhe o que precisamos ou quando procuramos do lado de fora as respostas que só nós mesmos podemos dar. Essa é a receita para a eterna insatisfação.

Apesar de não precisarmos ser individualistas, somos seres únicos e individuais. Assim viemos e assim partiremos desta vida, levando conosco apenas a evolução que alcançamos nesta jornada. E, creio eu que, a partir do momento que temos consciência de nós mesmos, daquilo que nos conforta e alegra, de nossos dons e potenciais, de nossas fraquezas, de nossas crenças e verdades, de nossa real importância nas vidas costuradas à nossa, podemos e devemos assumir as rédeas de nossa existência, e podemos enfim ser mais leves e carregar somente o que precisamos ou queremos. Não é egoísmo, é sabedoria!

Sim, sabedoria! Pois pra estarmos inteiros para aqueles que necessitam de nós, para quem amamos, precisamos estar completos e felizes conosco, ou se não estivermos felizes, que ao menos saibamos o que nos impede de sê-lo. Ninguém dá o que não tem e isso é matemático. Nenhum amor é capaz de substituir o amor-próprio, e não podemos nos amar sem nos conhecer. Não vislumbro outro caminho possível à leveza e à felicidade do que esta viagem de aceitação e descoberta de quem realmente somos e quais são nossas reais necessidades.

Infelizmente não há receitas prontas para esse aprendizado tão essencial! Existem vários caminhos e o meu encontrei nas palavras que escrevo. Muitas vezes, ao escrever ou reler meus textos ou poemas, encontro facetas e sentimentos até então desconhecidas, pois a palavra surgiu antes da consciência da emoção. E assim venho pelejando, mas posso afirmar que hoje sei muito mais a meu respeito e não espero mais que a aceitação ou as respostas venham de quem quer que seja. Não as tenho todas, nem pretendo tê-las tão cedo, pois acredito que tal façanha somente em outro plano existencial, mas acho que já descartei muito peso da minha alma. “Uma boa definição de felicidade: ser leve para si mesmo”; vale refletir!

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