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Sopro de vida




A vida lhe sorria, o sol brilhava sem pudores, a noite trazia uma lua feliz e um aroma de ternura e aconchego. Era a felicidade suprema! Antônia não cabia em si de satisfação.

A vida lhe abraçara, os dias seguiam amenos, as noites eram cuidadosamente ensaiadas. Era a realização mais profunda! Antônio sentia-se insanamente completo!

Ela o amava como nunca imaginou poder. Ele a amava como sempre ansiou fazer. Eles se amavam como náufragos agarrados um ao outro, mútuas tábuas de salvação. E assim seria pra sempre. Tinham agora um ao outro. Tinham pra quem voltar. Tinham pra quem sorrir. Tinham um lar.

Ele a viu pela primeira vez no restaurante modesto que sempre almoçava. Aquela moça esguia e de semblante abatido chamou sua atenção. Quase escondida na mesa do fundo, compenetrada na comida ou na leitura.

Ela o percebeu pela primeira vez no ponto de ônibus. Ela deixou cair a carteira e ele gentilmente a resgatou. Ela agradeceu com um sorriso. Aquele moço alto e de olhos brilhantes tocou seu coração. Se tivesse que nomeá-lo chamá-lo-ia esperança.

Ele a desejou profundamente.

Ela o esperou por toda a vida.

Não era um encontro. Foi um reconhecimento. Já se pertenciam!

E a vida foi preenchida por dois anos perfeitos. Dois anos de amor! Dois anos sem dor, sem solidão, sem lágrimas. Dois anos em que podiam sonhar!

E sonharam... E sorriram... Chegaram a acreditar.

Um dia o medo retomou seu lugar no coração dela e o pavor tomou assento na alma dele. A mesma fraqueza de antes, o suor frio, as mãos trêmulas.

O doutor foi funesto. Terminal! Nada havia a ser feito. Irremediável martírio!

Ela ainda ficou por dois meses. Ele vivendo pra ela! Ela expirando com ele!

Ela partiu numa manhã de inverno. Sorriu para ele e se entregou nos braços da morte, que desde menina lhe rondava as entranhas.

Ele partiu pouco tempo depois. Morreu de tristeza, dor e saudade. Não tinha por quem ficar!

E os dias seguiram a viver...

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