Quando era criança, no criado mudo de minha mãe tinha uma gaveta mágica. Tenho lembranças vivas do que nós, minhas irmãs e eu, achávamos lá dentro: maquiagem para pernas, um curvex estragado que por muito tempo não conseguia entender sua função, uma peruca ruiva que desconfio nunca ter sido usada como tal, botões de todas as formas, cores e tamanhos, um missal antigo, algumas fotos envelhecidas, cartões de natal, santinhos de missas de 7º dia, argolas de cortinas antigas e muitas outras coisas esquecidas do tempo e perdidas das lembranças.
Adorávamos vasculhar a gaveta, garimpando algo que nos pudesse ser útil, coisa que vez ou outra acontecia. Mas, por inúmeras vezes ficávamos lá, mexendo e remexendo naqueles objetos, sabatinando a mãe sobre seus significados e utilidades. E eles moraram lá naquela gaveta por muitos anos, resistindo bravamente à nossa curiosidade, a mudanças e arrumações. Posso apostar que alguns deles ainda residem no mesmo endereço de nossa infância.
Certa vez, precisava arrumar o cabelo para uma apresentação de balé (é meus amigos, há muitos anos me aventurei no mundo das sapatilhas!), mas tinha cortado o cabelo curto e o tradicional coque era missão impossível para as madeixas a lá Joãozinho. Quem me salvou? Isso mesmo, aquela peruca fadada ao ostracismo eterno, teve sua chance. Fiz uma trança na peruca, cortei-a, enrolei a trança num coque e a envolvi numa rede usada nos cabelos para discipliná-los. Aí era só pentear os cabelos com bastante gumex e prender com uma infinidade de grampos, o coque postiço. Por muito tempo aquele coque me acompanhou e surpreendentemente (já que era ruivo e sempre fui loura) nunca foi desmascarado na sua função de prótese!
Outras peças também foram aproveitadas (naquela época o conceito de reciclagem não era sequer discutido). As argolas antigas de cortinas se transformaram em pulseiras, botões enfeitaram paletós antigos que se transformaram em blazers, cartões de natal foram recortados e enfeitaram novas mensagens. O antigo se misturava ao novo e assim a gaveta foi perdendo alguns moradores ao longo de nossa criatividade.
Quando me lembrei dessa gaveta hoje, não pude deixar de lembrar o texto “Casa Arrumada” do Drummond que diz “Casa com vida, pra mim... Tem gaveta de entulho, daquelas que a gente guarda barbante, passaporte e vela de aniversário, tudo junto...” E ao reler esse texto senti o que essas lembranças que me acometeram queriam dizer, naquela gaveta sortida não moravam somente objetos deslembrados, moravam histórias e sentimentos, que se misturaram a novas histórias e deixaram uma gostosa sensação de vida, com todas as delícias que ela traz!
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