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Espelho, espelho meu!




Quando numa festinha de colegas da escola rolou meu primeiro beijo, lembro que ao chegar em casa fui correndo me olhar no espelho para verificar se aquele ritual de passagem vivido, havia deixado alguma marca em minha imagem. Nada perceptível! Estava tudo igual. Não me recordo ao certo o que procurava, mas com certeza investigava se a mudança interna, que naquele momento era apenas a sensação de ter mudado de status adolescente (não foi um beijo apaixonado, apenas protocolar), tinha se manifestado externamente. Naquela ocasião nada mudou minha imagem no espelho e em muitos outros também não, mas a vida imprime suas marcas no corpo lentamente, marcas essas nem sempre bem vindas, mas inexoráveis. Fugir delas é negar a própria história.

Não sou super ligada em imagem, pelo menos não na imagem física. Dedico-me mais em lapidar a alma e abastecer a mente, que é o que vou levar desta vida. Mas confesso que, vez ou outra, me deparo no espelho com uma mulher muito mais velha do que eu, que insiste em ser o meu reflexo. Algumas marcas de expressão, umas ruguinhas aqui e ali, uns quilinhos descartáveis, alguns fios de cabelos brancos. E apesar de não concordar sempre com o espelho, são reflexos de meu percurso, portanto, só o que me resta é reconhecê-los e abraça-los. Talvez o que mais me angustie são as limitações que o corpo apresenta com o passar do tempo, mas é o preço que temos que pagar. E pago feliz, pois nem em sonhos gostaria de voltar a ter 14 anos!

Mas voltando a imagens, gostar do que vê no espelho é essencial. Nada tenho contra cirurgias plásticas e tratamentos estéticos, desde que acompanhados de bom senso. Se te faz feliz ajeitar o nariz, ou aumentar os seios, ok, dou a maior força. Mas ficar refém da própria figura é triste e pequeno. Talvez os eternos insatisfeitos custem a descobrir o óbvio, arrumar por fora não põe a alma no lugar, pra isso só autoconhecimento seja por qual caminho for. E caso seu problema seja o olhar alheio, descobri que poucas pessoas (e não são as mais legais e nem as que importam) se prendem aos detalhes de nossa imagem. Mesmo porque imagem não é só um lindo rosto congelado num momento ou um corpo dentro dos padrões, imagem é atitude, é coerência, é verdade. É o conjunto da obra. Corpo e alma, apesar de reagirem de formas diferentes a ação do tempo, são indissociáveis. Pelo menos durante nossa estadia nessa vida.

Espelho, espelho meu! Existem pessoas mais belas do que eu? Claro que sim, milhares! Tudo bem, posso conviver bem com essa verdade sem querer fazer mil procedimentos e me transformar numa caricatura da Angelina Jolie ou num rosto plastificado sem história pra contar. Prefiro encontrar diariamente no espelho alguém que eu reconheça e que seja reconhecida por aqueles que importam. E caso precise de um upgrade no visual, que um pouco de fantasia de vez em quando não faz mal a ninguém, as maquiagens modernas podem fazer verdadeiros milagres!

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