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O infortúnio da gata



Certa manhã a família encontrou novidades na casa. Uma gata de rua pariu três gatinhos dentro da churrasqueira. Brava e arredia tentava afastar a qualquer um que se aproximasse de sua ninhada, mostrava os dentes e rugia como leoa. Foi um alvoroço geral. A cachorra da casa inquieta com a intrusa mantinha sentinela debaixo da manjedoura. Os filhos dividiam opiniões: deixa a coitada quieta, falava o caçula; não dá pra ficar aqui, praguejava o outro. E a gata, alheia ao furdunço causado, cuidava de sua cria com afinco e altivez, saindo somente tarde da noite, pra garantir sua sobrevivência.

E o tempo foi passando e ela cada vez mais dona da situação, foi se achegando a casa. Nas rondas noturnas descobriu que havia comida mais perto e era sempre vista furtando a ração da cachorra, que não se conformava e punha a dedicada mãe pra correr da cozinha, ladrando desvairadamente pra alertar a família da presença da gatuna. Uma correria! Uma barulheira! Rosnados e gritos, arranhões e tentativas de acabar com aquela farra da gata enxerida.

Depois de algumas semanas, gatinhos fortes e crescidos demais pra passarem muito tempo em espaço tão diminuto, começaram a ser vistos na garagem, perambulando debaixo dos olhos aflitos da mãe. Ela ralhava com eles e danava a miar pedindo socorro. A gata era pequena demais e não tinha forças pra leva-los de volta à segurança de seu nascedouro. Aí era outra confusão. A cachorra à espreita latia sem parar para os filhotes, que senhores da situação e confiando na defesa da mãe, desfilavam sem medo e se enfiavam nos armários, derrubavam garrafas, embrenhavam-se entre a mangueira enrolada no canto. Aí alguém intercedia em favor da gata e recolocava seus rebentos de volta, pra minutos depois, recomeçar o imbróglio animal.

Uma bela madrugada, todos recolhidos e silêncio completo, houve-se um tilintar de garrafas e miados de protestos. A mãe gata estava de mudança. Não para outras paragens como ansiavam alguns, mas para a casinha da cachorra que ficava num canto da garagem, desdenhada pela dona que não abria mão do conforto de dentro de casa. Mudaram-se de mala e cuia. Casa nova, vida nova, deve ter pensado a dona gata, que agora não tinha mais que escalar a churrasqueira, num esforço hercúleo, trazendo os traquinos fujões pela boca.

E mais uma vez foi hora da agitação. Gatinhos dispersos pelo pátio da garagem, a gata atenta tomando conta, a cachorra de plantão impedindo a gataria de comer sua comida. Um dia ela flagrou um filhote debruçado sobre sua vasilha de ração e arrancou ele de lá a patadas. A família então providenciou vasilhas exclusivas para os hóspedes, com ração e água, mas a cachorra achava um desaforo a mordomia e não permitia que eles se alimentassem. Era só abastecer que ela mesma ia lá e comia tudo, fosse comida de cão ou gato.

Quase dois meses passados, gatinhos saltitantes e fofos, hora de providenciar a doação. Não podiam permanecer com aquela bicharada. Anúncio feito e esperança de tudo se resolver a contento. Gatinhos doados, a gata ia tomar seu rumo e partir do mesmo modo que veio. Mas... o infortúnio aconteceu. Os levados felinos adquiriram o mau hábito de subir debaixo do carro e lá ficarem entre o motor e a lataria. A mãe zelosa sempre ia lá e tirava os moleques. Toda vez que alguém ia sair de casa, era uma trabalheira de olhar debaixo, abrir o capô e conferir se não havia rastro dos miúdos naquele lugar arriscado. Pois o pior aconteceu. Um dia foram-se os gatinhos junto ao veículo. O carro até foi vistoriado antes da partida, mas os filhotes desapareceram e era a única explicação. Tristeza e mal estar na família. Até a cachorra, inimiga dos visitantes, parecia que farejava alguma pista.

Mas o pior foi o lamento da gata mãe, que com seu miado doído procurava por seus pimpolhos, perambulando por todos os cantos da garagem. Não houve quem não se condoesse da dor da gata, que não desistia de chamar por seus filhos e exibia as mamas ainda cheias de leite. Um sofrimento terrível!

E por dias seguidos ela chamou e ao contrário do que se supunha, não foi embora pra sempre. Voltava de vez em quando em busca de comida. Meses se passaram e as visitas ralearam até serem meros passeios sobro o muro, devia ter esquecido o acontecido. Mas numa certa manhã...Dessa vez eram quatro gatinhos!

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