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Naquele dia... ( Jornal O Tempo em 03/04/14)



Naquele dia eu ainda não tinha nascido, mas carrego comigo, lembranças de um tempo que não vivi. Naquele tempo, de romantismos e elegâncias, de efervescências culturais e sociais, foi quando o súbito aconteceu. O que sei aprendi lendo. O que sinto vivi, ou apreendi de um tempo triste e sem cor. Meu pai contava casos, os professores contavam histórias.

Hoje, 50 anos depois, tentam amenizar o que houve. Relativizar seus abusos, encobrir os erros de todos os lados, enaltecer os “heróis” de ontem que tristemente são os abusadores de hoje. Ainda hoje escuto vez ou outra dizerem: naquele tempo o país era bom, tinha ordem, tinha respeito. E toda vez que escuto isso, um arrepio frio me corre a espinha.

Julgo sem piedade a ignorância do discurso, seja de quem for. Pergunte sobre a ordem pras famílias inteiras que só viveram terror! Pergunte sobre respeito àqueles que foram calados com ódio e escárnio! Pergunte sobre bondade aos que viveram torturados de corpo e alma!

Minha alma revolucionária ainda treme de pavor à menor menção desses anos amargos. Minha família sempre diz que, fosse eu mais que uma simples criança, iria pra resistência. Sou pacata de natureza, mas não pisem nos meus dogmas sagrados que viro bicho. Talvez hoje, depois de 50 anos, dos quais 25 encarcerados e outros 25 pelejando, possamos ler nas entrelinhas da dor menos visceralmente. Talvez hoje a razão possa suplantar a comoção que arrebatou nosso lugar, mas duvido. E duvido por mim mesma, que não sofri o mal consciente, mas colho seus efeitos em meu estômago, que a cada leitura ou documentário, se contorce nauseabundo.

Vivi sim, e com pueril alegria, a reviravolta, a retomada da liberdade, a promessa de democracia que (cruelmente) teima em não se cumprir completamente, sem senões e hiatos apavorantes. Juntei-me ao exército na rua, com uma euforia quase esquizofrênica, pois naqueles dias me sentia da resistência, fantasiava uma luta coesa, uma brigada de iguais contra o fascismo do medo e da intolerância. Era invencível, embriagada de esperança e de pertinência. Tinha mais ou menos vinte anos, mas cumpria naquele tempo (1983 – 1989) a saudade que sentia de quando eu ainda nem existia (1964).

O dia 1º de abril de 1964 (e todos os outros que se seguiram) não é para ser comemorado, mas não deve jamais ser esquecido. Não merece festividades, tampouco menções honrosas ou aproveitamentos escusos daqueles que jogaram suas histórias passadas no lixo comum do presente. Mas temos que contar essa história, incessante e primordialmente aos mais jovens, que sofrem de uma alienação cívica galopante e preocupante, pois ainda somos enormemente frágeis e passíveis de engodos.

Carecemos agora, nesse exato momento, de nomes em quem confiar. Salvemos a nós mesmos, aos nossos meninos de agora, contando essa triste história. O final feliz que sonhei aos vinte anos, e que muitos sonharam e sonham há 50 anos, ainda não foi. O que preciso acreditar é que ainda será.

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