O nome dele era Bernardo, mas poderia ser João, José, Maria ou qualquer outro. A cidade foi Três Passos, mas poderia ser qualquer outra cidadezinha do interior do Brasil ou mesmo uma grande metrópole. O sotaque era sulista, mas poderia ser nortista, nordestino ou mineiro. A tragédia é de todos e o absurdo ronda todas as famílias. O luto é nosso.
Quem matou Bernardo? A madrasta? O pai? A amiga da família? Estes são os executores, mas a lista de responsáveis é mais longa e compreende todos aqueles que sabiam e se calaram, que viram e não interferiram, que ouviram e não deram crédito, que comentaram e não denunciaram. Bernardo pediu socorro. A posição social de seu pai gritou mais alto. Pobres coitados!
É tão mais fácil apontar culpados sem o escudo protetor do dinheiro! Fosse Bernardo filho dos guetos e comunidades talvez tivesse tido uma chance. Mas o garoto nasceu em berço de ouro, era filho de médico conhecido, a casa que lhe negava um lar tinha piscina e carro do ano na garagem, o pai que lhe negava afeto tinha fama e reconhecimento profissional. Pobre Bernardo!
Nesse mundo violento em que vivemos, que tantas vezes banaliza horrores e expõe as tragédias humanas em troca de vinténs, a história desse menino franzino e triste fragiliza e faz refletir. Será que, estivéssemos mais perto, eu ou você, tínhamos feito alguma coisa? Ou estaríamos intimidados como todos ficaram? Não sei. Mas a omissão de uma cidade inteira diante do sofrimento de uma criança vale uma pausa para pensar.
Imagino agora, diante de tamanha barbárie, como devem estar aqueles que conviviam com o menino e sabiam (ou desconfiavam) de seu calvário. Parentes, vizinhos, professores, amigos, empregados. Mas quem suporia um desfecho desses? Como imaginar que seriam capazes de tamanha crueza? Difícil imaginar! Diria até impossível prever o tamanho do abismo que se abria. Não nos cabe julgar. Talvez nos caiba redobrar a atenção à nossa volta!
O fato é que temos o péssimo hábito de pensar que o dinheiro protege, e que quem precisa de proteção são os que não o possuem. Nosso preconceito arraigado e medieval nos põe agora em uma situação de conflito, pois ainda cremos que abandono é coisa de gente pobre e que desamor não acontece em palácios, somente em barracos. Pobres de nós!
Que a vida e a morte de Bernardo nos sirva de lição e que nosso olhar torto pra sociedade em que vivemos possa ganhar lentes novas. Oxalá!
Comentários
Postar um comentário
Leitores, deixem seus comentários e impressões: