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Rumo ao inevitável!






A Copa do mundo é nossa! Dessa vez não é a taça, é a Copa mesmo, a taça também pode ser, mas aí já é outra história. Somos anfitriões dos olhares do mundo inteiro, dos apaixonados pelo futebol planeta afora, da mídia internacional, de 32 seleções dos cinco cantos da Terra. Teremos, durante um mês, os holofotes voltados pro nosso quintal, pras nossas mazelas, pros nossos costumes. Seremos o epicentro das notícias, o olho do furacão, o palco do maior espetáculo esportivo do mundo. Mas há uma tristeza no ar... Estranhamente, o país do futebol não está feliz com a Copa das Copas.

Talvez no dia 12 de junho, quando derem a largada rumo ao título, o orgulho verde-amarelo nos arrebate e as raízes falem mais alto, quem sabe? Talvez quando a bola finalmente rolar, nos gramados superfaturados de nossos modernos estádios, consigamos esquecer toda a maléfica brasilidade tatuada em quaisquer grandes obras erguidas por aqui. Talvez quando os atletas do futebol, catapultados pela mídia ao patamar de astros ou super-heróis, desfilarem em campo seus dribles e passes mágicos, esqueçamos toda a amargura ruminada nos últimos tempos. Mas há uma tristeza no ar...Perceptivelmente, os jingles eufóricos e hinos de outrora não nos deslumbra mais.

Muito tem se falado sobre os gastos astronômicos com a Copa. Muitos protestos já se fizeram contra ela e outros tantos se esperam durante esse tempo onde a bola será o centro das atenções. Há opiniões pra todo gosto e discursos que vão da análise séria do fato ao devaneio alienado de quem não vive o Brasil de verdade, passando pelo fanatismo dos que querem é ver o circo pegar fogo. Não era hora de um investimento tão vultoso! O evento trará dividendos para o país! Ficaremos com vários elefantes brancos depois que tudo acabar! A Copa vai quebrar o Brasil! O PT já comprou a taça e vai usá-la como campanha eleitoral! Já ouvimos de tudo um pouco. Mas há uma tristeza no ar... Melancolicamente, as estrelas do futebol não nos inspiram mais.

Especulações à parte e a despeito de tantas teorias conspiratórias relacionadas à Copa do Mundo no Brasil, não gostaria de ver nossa casa transformada numa praça de guerra. Quebradeiras, violência gratuita contra gente que não tem nada com isso, desrespeito aos turistas que nos brindarão com sua presença, não é um bom jeito de mostrar nossa insatisfação. A festa vai acontecer, é fato consumado. Nossa indignação chegou tarde demais, quando todos os acordos e jeitinhos já estavam carimbados. Alguém, em sã consciência, acredita que todo o montante gasto nos preparativos da Copa, caso essa não fosse aqui, seriam revertidos em serviços básicos ao cidadão? Se não fossemos os anfitriões do torneio 2014, teríamos saúde e educação de qualidade pra todos? Se a Copa fosse disputada na Conchinchina, a segurança pública seria exemplar? Improvável!

Mas há uma tristeza no ar... diria mais, há uma tensão no ar, um medo ainda abstrato, sem nome e sem rosto. Por mais que os canais de TV tentem e que os comerciais de refrigerantes e cervejas enfeitem, estamos com o pé atrás. Talvez nem seja pra tanto! Ou estamos mesmo é com medo de sermos abduzidos pela euforia, pois precisamos sempre chorar sobre nossos problemas e arranjar um culpado que não seja nossa histórica incapacidade de escolher nossos representantes, e nossa surreal capacidade de esquecer absurdos em troca de vantagens pessoais.

Nessa Copa, a minha torcida será pela paz! Sinceramente o resultado pouco me importa. O que tá feito não está por fazer, como dizem por aí. Espero que possamos mostrar ao mundo que somos no mínimo civilizados e inteligentes. Não há manifestação que grite mais alto do que uma multidão em paz! Vamos mostrar ao mundo que, apesar de sermos muito condescendentes com nossos governantes, não somos um exército de bárbaros ignorantes! Ademais, em outubro, teremos a maior oportunidade de manifestação já inventada pela sociedade moderna: eleições!


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