Fui a Divinópolis, na festa literária, ver Adélia Prado. Uma corrida pelo ingresso, uma pressa de chegar cedo e pegar um bom lugar, sou da turma do gargarejo, quero ver de perto, perceber detalhes, olhar no olho. Ela falou, falou sobre a vida moderna, sobre a pressa que nos oprime, sobre nossa falta de silêncios, sobre o sentido da vida, sobre a missão da literatura. Trazia uns escritos pra orientar sua explanação, papel de caderno, escrito à mão. Quase trezentas pessoas em absoluto silêncio a ouviam e sorviam cada palavra. Eu ali, na segunda fila, bem pertinho, respirava de mansinho pra não perder nem um suspiro.
Acabada a palestra foi aplaudida de pé, ovacionada. Após sua fala haveria uma apresentação musical e ela queria assistir. Apontou um lugar e perguntou se estava vago. Bem na minha frente. Sentou-se, ajeitou-se. Uma mulher ao meu lado a cumprimentou intimamente e ela respondeu: oi, quanto tempo não a vejo! E ficou ali, ouvindo as artistas do palco com atenção. Estava a um palmo de mim, a um sussurro de minhas vontades de conversar, de pedir um autógrafo em cada livro seu que guardo, de contar-lhe minhas aventuras poéticas, do meu desejo de abraçá-la e de entregar-lhe meu livro, de saber sua opinião (qualquer que seja).
Mas não era hora, não era oportuno, não era educado, não ia incomodá-la com meus quereres de fã. Ela havia pedido aos organizadores pra não autografar. Me contive, mas fiquei ali, naquele colóquio imaginário e naquela raríssima oportunidade de dividir com ela o mesmo espaço, de respirar o mesmo ar, de coexistir no mesmo tempo, de absorver sua energia tão próxima e infinitamente distante. Ao final do espetáculo me apressei e cheguei até ela, agradeci e pedi um abraço, pedido esse atendido com um sorriso e um carinho de avó da gente. Meu marido disse-lhe que foi seu aluno e ganhou um gracejo e um abraço! Voltei pra casa feliz!
Muita gente de lá, seus conterrâneos, me disse que ela não é simpática, que não cumprimenta na rua, que não gosta de tirar fotos. Talvez eles, que moram na mesma cidade que ela, conheçam mais a mulher que a poeta. A mulher comum, religiosa, mãe, esposa, amiga ou desafeto de alguém. Ou talvez seja a personificação do ditado que santo de casa não faz milagres. A mim nada disso importa. Louvo a poeta extraordinária, admiro a escritora premiada e reconhecida, respeito a mulher comum, seja ela como queira ser. Salve Adélia! Obrigado Adélia!

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