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Indecisos Anônimos

 Texto publicado no Jornal O Tempo, em 02/10/2014





O voto é um direito antes de ser um dever. O voto é secreto e confidencia-lo é prerrogativa individual, cada um faz o que achar que deve, torne-o público ou leve ao túmulo a sua escolha. Pois bem, nem que eu quisesse hoje, poderia tornar público meu voto, pois pela primeira vez na vida me incluo na lista dos indecisos. Nunca antes na história dessa pessoa que vos fala, isso aconteceu. Sempre tive direção na ponta do dedo e argumentos na ponta da língua! Confesso, sempre olhei para os indecisos com certo ar de desdém, como pode alguém não saber pra onde ir? Paguei língua, bebi do meu próprio veneno. Não que não saiba o que quero para meu estado e país, sei e é exatamente por isso que a indecisão me arrebatou. No cenário que se apresenta o que me falta é coragem de endossar, com meu único instrumento disponível, os discursos e atos inconsistentes que desfilam por aí.

Nunca diga ‘dessa água não beberei’, sábio conselho! Estou bebendo agora, desse amargo sentimento de desesperança e descrença, que vem me deixando numa angústia danada a cada dia que as eleições se aproximam. Se ainda fossem tantas as boas opções, que escolher uma fosse desperdiçar as outras! Quem nos dera tal utopia! Quem me dera ter agora uma convicção pra chamar de minha! Qualquer uma e já estaria feliz! Mas nada... Nem ninguém ainda conseguiu me alavancar desse limbo onde residem os indecisos de plantão. Estou entre os 5% que não sabem ou não responderam (ninguém me perguntou também), estou à cata de motivos, numa busca desesperada de argumentos que soem confiáveis e menos corporativistas. Estou fundando o IA (Indecisos Anônimos), alguém se habilita?

Ando ultimamente assistindo aos programas eleitorais com uma dedicação digna de dó. Assisto a debates, leio reportagens dos diferentes nichos, não perco entrevistas, busco opiniões entre aqueles a quem admiro e respeito, olho, ouço, meço e peso cada ação, cada postura, cada semblante. Tudo em busca de alguma verdade que me devolva a esperança. E nada me convence! Nada me acalma o desespero de não crer mais. Nada me tira a triste sensação de estar assistindo a um desfile de mascarados, que ao final do espetáculo gargalham daqueles que engoliram sua conversa fiada e lhe confiaram o poder, que é somente o que importa. Não consigo enxergar os mocinhos desse folhetim. Só vejo vilões! Não vislumbro ideais, só interesses. Não distingo mais o joio do trigo, aliás, ainda há trigo?

Ainda tenho uma semana pra decidir! Alguns longos dias até a derradeira hora de apertar o confirma e ouvir soar o sininho da urna, lembrando que você cumpriu seu dever de cidadão e exerceu seu democrático e sagrado direito de escolha. Hora essa que sempre me foi aprazível e agora me traz agonia e medo. Momento esse que desde que me entendo por eleitora, sempre me imprimiu um orgulhoso sentimento de pertinência. Dizem que a reta final das campanhas eleitorais é dedicada aos indecisos (ou seriam incrédulos?), pois bem, sou toda ouvidos! Que Deus me ajude e nos proteja!

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