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Era pra rir?




Humor! É preciso ter, mas sem exageros. Confesso que sou meio chata pra brincadeiras, piada demais pra mim é falta de assunto (que me perdoem os piadistas de plantão) e tenho um humor meio ácido, às vezes sulfúrico, sou séria por natureza. Resumindo: não costumo rir à toa. Mas como tenho meus limites costumo respeitar o limite alheio. O fato é saber onde está esse limite e qual a sutil diferença entre liberdade de expressão e desrespeito. Há duas semanas o mundo não fala em outra coisa!

Je suis Charlie? Je ne suis pas Charlie? Há que se pensar no assunto. Não que haja alguma justificativa para qualquer ato terrorista, definitivamente não há. Nada ou ninguém pode ser condenado a desaparecer na mão de extremistas sejam de qualquer causa ou sob qualquer pretexto. Condeno veementemente todo ato de violência, venha de onde vier. Mas liberdade de expressão, a máxima de qualquer democracia e o sonho de todos os cidadãos que ainda convivem com regimes ditatoriais, não está acima do bem e do mal e nem pode ser uma metralhadora giratória sem ética nem bom senso. Há que se separar o joio do trigo. Muitas vezes a intolerância é a mesma, apenas as armas diferem.

Ainda falando de humor, que façam quem sabe, não quem pensa que sabe. Li hoje ao acordar um texto ofensivo e de péssimo gosto de uma colunista do jornal O Globo, em que ela tenta satirizar a camada mais pobre da população. Ao ler o texto execrado nas redes sociais, procurei com cuidado algum traço do humor cáustico que a autora, em nota, justifica o fiasco. Se a intenção era fazer rir, ela há muito tempo não dá uma boa gargalhada, passou longe. Só preconceito, intolerância e mal-estar é o que eu consegui enxergar. E aí, ofender uma classe social inteira, a troco de nada, também é liberdade de expressão? Há alguma conexão desse lamentável episódio com o caso da revista Charlie Hebdo?

A conexão é a intolerância que se alastra por todo lado em proporções variadas e consequências também diversas. Palavras e desenhos não matam, mas pregam o ódio e difundem as diversas sociofobias que destroem e matam sim muita gente. As mídias e os formadores de opinião que as manipulam possuem um poder assustador, há que se terem responsabilidades com o que se publica, pois, você pode ter seguidores e dentre eles pessoas radicais e capazes de atos insanos. Como diz Zeca Baleiro, tanto faz quem você é, “Você vai ter que responder pelo que faz/Você vai ter que responder pelo que diz”. 

O mundo precisa de mais
amor e humor, mas humor que faça rir, que divirta, que nos faça mais leves nessa vida já demasiada pesada. Je suis plus de respect et vous?

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