Panelaço, buzinaço ou o que o valha! O choro é livre! E olha que o chororô tá correndo solto. Uma rápida espiadela na timeline e chovem textos, análises e reclamações de todo tipo. Todos armados até os dentes das mais nobres razões, reclamam de tudo e de todos e muitos reclamam dos que reclamam. Barril de pólvora talvez seja a definição adequada para o Brasil agora. A dúvida é: quem acenderá o pavio?
Sempre fui da turma que reclama, acho que manifestações de insatisfação (pacíficas, claro) são sempre legítimas e que, numa democracia de verdade, conviver com ideias divergentes é corriqueiro e primordial. Hoje o que não nos faltam são motivos para reclamar. Crise econômica grave, inflação, crise ética sem precedentes, falta de credibilidade política e administrativa, falta de vergonha na cara daqueles que são pagos pra cuidar da coisa pública, etc, etc, etc. Podia ficar aqui, por milhares de caracteres, desfiando o rosário de nossos infortúnios, mas tudo está amplamente escancarado nas mídias, portanto, vamos poupar esforços.
O que não posso me furtar a dizer, é que há algo de muito nefasto no ar, e que temos que fazer algo a respeito. O que anda me incomodando nesse balaio de gatos é a categorização radical imposta ao povo brasileiro, e que só serve aos interesses daqueles que, não é de agora, nadam de braçada no dinheiro do país. Sinto que estamos caindo feito patos na cilada de, ao invés de mirar os alvos que efetivamente precisamos abater, mirarmos em nós mesmos, dividindo a nação entre elite e povão, merecedores ou não de um país sério e correto. Será que ninguém vê esse movimento, ou eu é que já estou ficando paranoica?
Quem pode se manifestar? Quem pode ocupar as ruas, ou bater panelas? Quem está credenciado a cobrar das autoridades o que foi exaustivamente prometido nas campanhas eleitorais? Quem tem o aval para se horrorizar com a corrupção deslavada? Quem pode gritar que está tudo errado e que o barco está sem rumo? Somente os pobres, porque inflação não afeta os mais abastados e estão chorando de barriga cheia? Somente os que não elegeram a presidente, porque quem votou é cúmplice e não tem direito de cobrar? Só as mulheres, porque se for homem é questão de gênero e isso é machismo? Só os vermelhos, porque os azuis são coxinhas, os verdes alienados e não merecem respeito? Sinceramente, só lamento! Mas tem uma turma aí, sem cor definida e de todos os sabores, que estão rindo à toa.
Enquanto estamos aqui, discutindo quem pode chorar e como esse choro pode se expressar, eles estão lá, cercando-se de defesas milionárias, jurando inocência e indignando-se com a santa imagem maculada, alinhavando os mais escabrosos conchavos, protagonizando teatros dignos do Oscar. Tudo ali, na nossa cara, à luz do dia, sob a tutela de nossa cegueira crônica, de nossa desunião como nação e de nossa incapacidade de viver a democracia em sua totalidade.
Só um lembrete aos brasileiros de meia tigela, que pensam que o país se resume aos seus iguais: estamos todos - independente de qualquer escolha - na mesma barca furada, sem bússola, sem bote salva-vidas e debaixo de uma baita tempestade. Portanto, se continuarmos brigando pra disparar o sinalizador ao invés de cobrarmos atitudes dos comandantes, vamos naufragar! Rememos então na mesma direção, pois como dizia o poeta “Navegar é preciso” e no nosso caso urgente!
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