Dia desses um grupo de alunas me pediu uma entrevista para um trabalho da escola. Perguntaram-me, dentre outras coisas, por que eu escrevia, qual era a motivação, qual era o público que gostaria de alcançar, qual a responsabilidade que isso me impunha. Confesso que sempre me faço algumas dessas indagações! O que me impele a escrever? Qual o objetivo disso? Pra quem eu escrevo? O que tudo isso modificou a minha vida?
Por mais clichê que possa parecer (a vida é clichê, diga-se de passagem), eu não escrevo para ninguém além de mim mesma. Escrevo o que me dá na telha, o que o momento me inspira, o que o tempo externo ou interno me permite. É uma lógica própria, sem roteiro pré-definido, sem normas fixas ou estabelecidas por qualquer escola literária, qualquer ordem de relevância. A motivação que me move é egoísta, escrevo o que quero e pra mim. Muitas vezes alguém me diz que escrevi exatamente o seu momento, ou o seu sentimento e essa sintonia é a doce constatação de que somos todos feitos das mesmas emoções. Sempre haverá alguém que cabe dentro daquilo que está escrito, que compartilha daquelas sensações. Eis aí a mágica da literatura, tocar o outro a partir de um sentimento íntimo e egocêntrico, de uma mera necessidade de expressão sem compromisso com o encantamento alheio.
Claro que, grandes escritores de renomados meios de comunicação ou que detenham vultosos contratos editoriais, acabam por se preocupar em adequar suas palavras aos anseios dos leitores que os sustentam. Mas como estou a milhares de anos-luz dessa situação, sigo fazendo de minhas palavras um canal de esvaziamento de mim, de autoconhecimento, sem comprometimentos nem pudores em dizer o que me vem à cabeça. Mas, como em tudo na vida, sempre haverá o bônus e o ônus. Dia desses, minha madrinha me ligou para me declarar sua admiração pela minha coragem em escrever publicamente e, refletindo sobre, me dei conta da responsabilidade que isso impinge e acabei por constatar que escrever e deixar que o mundo te leia, ao mesmo tempo liberta e aprisiona. Liberta, pois deixamos claro para quem lê, a nossa essência e o que somos (toda literatura, sem exceção, é autobiográfica!). Aprisiona, pois sempre seremos reféns de nossas palavras, que está lá, exposta em praça pública, e mudar de ideia é mais trabalhoso e dispende mais argumentos, mas se há coerência e verdade no que se escreve, creio que tudo certo!
Quintana disse ‘Nunca me releio... Tenho um medo enorme de me influenciar!’, e isso faz todo o sentido. Nossas palavras são como rotas traçadas e nos guiam e nos influenciam sim. A vida que levamos é pautada nas palavras que escrevemos, ou ainda escreveremos. Mas ao contrário dele (o poeta das coisas simples), vez ou outra me releio e não raro, ainda descubro coisas sobre mim escondidas na desatenção do cotidiano. Escrever é traduzir a alma em palavras e, traduzindo a nós mesmos em sôfregos versos, histórias ou em frases objetivas, acabamos por criar conexões com outras almas que calham naquilo que somos. Portanto, não é o escritor que escolhe seu leitor e sim o leitor que encontra abrigo nessas ou naquelas letras.
As palavras me salvam, por isso escrevo. A vida sem elas não me é mais possível, mesmo que fiquem esquecidas no fundo de minhas gavetas ou nos arquivos de meu computador. Escrever não é meu ofício (quem sabe um dia...), mas é minha redenção!
Comentários
Postar um comentário
Leitores, deixem seus comentários e impressões: