‘Todo dia ela faz tudo sempre igual’ e há alguns dias, por duas vezes me dei conta o quão verdadeiro é essa frase do Chico. Era uma quinta-feira e quando saí do banho meu marido indagou: Uai, você não lavou o cabelo, como faz toda quinta? Fiquei tentando lembrar se realmente fazia o mesmo ritual toda semana. No dia seguinte, ao sair do trabalho meu filho perguntou: Você vai passar na padaria tal, como faz toda sexta? Aquilo me encafifou, pois foram dois comentários próximos, e fiquei refletindo sobre como os hábitos são determinantes em nossas vidas. Apoderamo-nos deles e colocamos a vida no automático, tudo igual todo dia, toda semana, a vida toda. E nem sequer nos damos conta disso!
E engraçado que, por diversas vezes e com toda convicção, disse que a mesmice me aborrece. Imagina se não aborrecesse!? Seria o mais óbvio dos seres, talvez até o seja! Há milênios bebo o mesmo café com leite no café da manhã, sento na mesma posição do sofá para ver TV e na mesma cadeira da varanda depois do almoço, faço as refeições no mesmo lugar da mesa, penduro a bolsa na mesma cadeira ao chegar em casa, escrevo no mesmo canto, inicio as compras no supermercado sempre pelos mesmos produtos. Posso até fazer diferente por motivo relevante, mas há sempre um estranhamento. E escrevendo isso agora chego a suspeitar que sofra de TOC! Caetano tem razão, de perto ninguém é normal!
Deixando minhas esquisitices de lado, o fato é que a rotina se impõe de forma implacável em nossas vidas (creio que não só na minha!). Já li inúmeras matérias que diziam ser um santo remédio contra a senilidade e até o Alzheimer, a quebra de rotina. Variar o caminho para o trabalho, experimentar novos sabores, escutar músicas de diferentes estilos, ler diversos gêneros literários (ao menos isso eu faço!). Mudar, sair do script, inovar! Mas não é só para envelhecer melhor que variar a rotina de vez em quando é bom. Para tirar a ferrugem dos sorrisos, tirar a poeira das relações, tirar o peso dos compromissos, deixar a vida um pouco mais leve, mais doce ou apenas menos amarga. Nada mais revigorante que uma surpresa, um gesto inusitado, um encontro não programado.
Mas ninguém precisa ficar neurótico e começar a programar minuciosamente uma não rotina, porque aí se corre o risco de fazer do diferente um novo hábito. Pois, por melhor que seja viver coisas diversas, a rotina é reconfortante e acolhedora, é porto seguro, conta quem somos, mostra nossa essência. É só lembrarmos o quanto é bom voltar pra casa depois de uma longa viagem, voltar às atividades depois das férias, saber que existe uma vida constituída e que, no que fazemos rotineiramente é que vão morar as melhores lembranças que deixaremos, quando não estivermos mais por aqui. Sempre igual ou cheia de novidades, “eu fico com a pureza da resposta das crianças, é a vida e é bonita, é bonita!”. Sigamos sempre eternos aprendizes!
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