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Quem poderá nos salvar?




Uma escola é feita de cotidiano, como a vida. O que sustenta o aprendizado que é colhido e construído é o dia-a-dia dentro da sala de aula, o olhar do professor sobre a turma, o relacionamento que se estabelece entre o mestre e o pupilo. Tudo o mais é enfeite, que embeleza, ajuda, é necessário, mas não é vital. O profissional capital da escola, aquele que não pode faltar e que é o maior responsável pelo aprendizado dos alunos, é o professor! Todos os outros, do diretor ao faxineiro, são suportes, que auxiliam ou atrapalham, mas que orbitam ao redor do trabalho do professor. Por isso ser professor é tarefa árdua, de extrema responsabilidade e que exige muitas habilidades além de conhecimento, capacidade de adaptação, vontade de acertar, vontade de aprender. Nesse papel não cabe menos.

Em outras épocas, num passado não muito distante, o professor era autoridade absoluta (“falou tá falado, não tem discussão”!) tanto em relação ao conhecimento que detinha, quanto ao modo de se relacionar com o aluno. Nenhum professor precisava tecer estratégias para ser respeitado (ou temido), bastava estar ali, bem ou mal preparado, com jogo de cintura ou intransigente, capaz de encantar ou apenas mero transmissor de conhecimentos enciclopédicos. Ele era o dono do pedaço e ponto. Todos nós, de idas gerações, havemos de nos lembrar de nossos mestres, com ternura ou horror, mas como os seres supremos da sala de aula, templo onde no púlpito pulsava ou jazia a entidade professor.

É bom que nos lembremos de que esses tempos estão mortos e enterrados, e sem a menor possibilidade de ressurreição. Nem mesmo nossa eterna nostalgia, ou somente os modelos que ficaram impregnados em nossa mente, serão capazes de trazê-los de volta. Zefini, The End, Ponto final. Se ainda, mesmo inconscientemente, reproduzimos os velhos e empoeirados paradigmas, o mesmo não se pode dizer de nossos alunos, geração Y, conectados, alienados, ansiosos, tecnológicos e mergulhados em uma crise de autoridade sem precedentes, onde nem os pais e nem mesmo a polícia armada é reconhecida como tal. Pra enfrentar essa turma só com argumentos convincentes, verdadeiros. Entrar numa sala de aula lotada de adolescentes loucos para te desafiar, sem planejamento, sem conhecimento e sem dizer a que veio, além de irresponsável, é um ato de insanidade. Eles têm o mundo na palma da mão, é preciso oferecer algo minimamente interessante ou útil pra competir.

Para ser reconhecido como professor (no sentido mais amplo da palavra) não basta mais se apresentar como tal, e não adianta berrar, nem se fazer de coitado. É preciso querer e ralar! O professor somente será reverenciado como autoridade (e muitos o são) e apontado como referência, se tiver a competência de conquistar esse espaço através de sua atitude dentro da sala de aula, no dia-a-dia, nas linhas e entrelinhas desse relacionamento tão frequente e tão importante. Como fazer? Talvez essa seja a pergunta que não quer calar! Mas, talvez também, essa repetida indagação seja apenas a maneira mais fácil de não ouvir a resposta, que não é única, que não está pronta a despeito das inúmeras teorias disponíveis, e que carece de movimento para ser percebida. Só descobre seu caminho aquele que se dispõe a olhar e ver, ouvir e escutar, combinar e cumprir, ler e entender, estudar e refletir, aprender e aplicar. Por milagre, por osmose e sem disposição pra buscar, impossível.

Não adianta reclamar dos meninos de hoje, não teremos mais os de ontem. Temos que nos adaptar ao nosso material de trabalho, que não é um amontoado de papéis que podemos dispor como nos convém ou listas de nomes numa tela de computador; trabalhamos com gente, com seres em formação, com sonhos, expectativas, desejos, aptidões, dificuldades. Lidar com gente dá trabalho, ainda mais quando estão em grupos e mais ainda quando somos os responsáveis por fazê-los aprender, muitas vezes, coisas que não fazem o menor sentido pra eles. Por isso aquilo que ensinamos precisa fazer sentido para nós mesmos, precisamos conhecer a fundo daquilo que falamos, pois nenhum aluno fica indiferente a um professor apaixonado pelo que faz. E, se a vida não foi tão generosa com você e não te permitiu a paixão, faça com convicção. O que não funciona é o modo tanto faz, o não comprometimento, a ausência completa de interação, o estar por estar, fazer por fazer. Se nem você respeita seu trabalho, não espere que alguém o vá. Magistério, definitivamente, não é atalho, precisa ser caminho.

Vivemos tempos bicudos, é verdade. Todas as mazelas de nossa questionável sociedade estão dentro da escola e habitam as nossas salas de aula. Oxalá a escola fosse imune a todos os problemas do mundo. Não é. Mas ela precisa continuar a ser ponte e nós, professores, precisamos acreditar nela como tal. Acreditar é a chave, é o que move. Se nós, que somos protagonistas nesta empreitada, que ninguém nunca prometeu que seria fácil, perdermos a fé em nosso trabalho e em nossa importância, esperaremos sentados o crédito alheio. Portanto, ninguém além de nós mesmos, poderá nos salvar! 


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