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Despedida...







Acabo de perder o meu pai. Acabo de conhecer uma dor inédita, assombrosa, uma tristeza desmedida que parece que vai me sufocar a qualquer momento. Foi tudo muito rápido e inesperado, mas desconfio que sempre seja assim, sem preparação, independente de qualquer coisa ou situação. Sempre achamos que é cedo, que ainda havia tempo a ser vivido, metas a atingir, sonhos a realizar. Diante do imponderável da vida, me sinto completamente desprovida de certezas. ‘Só sei que nada sei’, me junto a Sócrates!

Mas como em tudo que vivemos a perda também traz aprendizados que transformam o nosso olhar para o mundo. Diante de um sofrimento descabido e que por vezes me aniquila, a vida continua. E essa constatação ora me acolhe, ora me flagela. As imagens da vida e da morte teimam em não se juntar. Diante da vastidão do nunca mais, tudo fica temporariamente sem sentido, sem cor. Acredito, ainda por ouvir dizer, que o tempo acalma a dor e lembrar vai ficando mais leve até se tornar sorriso. Oxalá!

Mas creio em um Deus de amor, na justiça e na providência divina e isso é o que me faz aceitar que cada um de nós tem o seu tempo nessa existência. Nascer e morrer faz parte de um ciclo e a duração desse intervalo a que damos o nome de vida, é de caráter individual, íntimo e não tem nenhuma conexão com o querer daqueles com quem coexistimos e amamos. Nascemos e morremos sós, conviver é nossa missão nesse mundo e a maneira como a cumprimos é o que determina a nossa evolução espiritual.

Aprendi muitas coisas com a vida do meu pai, ele gostava de aprender, tinha uma mente inquieta e livre de preconceitos, uma sede de entendimento das coisas desse e do outro mundo. E estou aprendendo muitas outras coisas com sua partida, inclusive a conhecê-lo melhor por olhos alheios. Descobri que seu jeito carinhoso, acolhedor e companheiro não era privilégio nosso. Diante de inúmeras manifestações de pesar pela sua morte, sinceras e vindas de pessoas tão diversas, tivemos a dimensão do tamanho do seu coração, que já sabíamos manso e doce.

Aprendi que a morte redimensiona a vida, que as falhas ficam pequenas e as qualidades é que se sobrepõem. Que a certeza do amor dado e recebido nos traz paz e nos fortalece. Que a crença na continuidade da essência e da consciência nos deixa uma esperança de reencontro. Mas aprendi também que nenhum conhecimento e nenhuma crença evita a dor aguda da despedida e da saudade e que estar triste e poder demonstrar essa tristeza sem pudor faz parte do caminho de superação.

Aguardo ansiosa o momento em que a gratidão e a alegria de tê-lo tido, sempre tão perto e presente em minha vida se torne maior que o vazio que sua ausência me impõe na alma. Hoje o que me conforta e preenche meu coração partido é saber quantas vidas ele impactou para o bem, deixando um rastro de carinho, otimismo, solidariedade, respeito e admiração. Tenho convicção que seu caminho agora será de luz e plenitude. Plantou boas sementes nessa vida e irá colher bons frutos onde quer que esteja. E o enorme amor que ele cultivou irá permanecer para sempre!

Até um dia, pai! Eu amo você!









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