Acredito que as coisas acontecem por uma razão, um cuidar. Quando era criança, eu e minhas irmãs passávamos horas a fio brincando de casinha, inventando enredos para as bonecas, interpretando situações imaginárias. Lembro que ficava pensando se em nossas vidas também haveria alguém que controlava os acontecimentos, seres gigantes e invisíveis que guiavam a nossa história, tal qual fazíamos com as bonecas. A mesma sensação eu tinha quando observava as formigas (tinha mania de observá-las). Todos os rituais, os caminhos que percorriam e os cochichos ao topar com uma companheira. Se quisesse poderia acabar com tudo aquilo, bastava uma pisada e já eram! Muitas vezes me peguei matutando sobre isso; onde estava o controle sobre o nosso caminho?
Talvez hoje respondesse à menina que fui um dia e que de certa maneira ainda mora em mim, que esse controle transcende a nossa compreensão limitada, mas que há sim algo maior, que gosto de chamar de Deus, que sabe o que faz, é justo, e que nos oferece todas as condições de enfrentar a vida. Diria que o objetivo é sempre o bem, mesmo que às vezes não consigamos entender completamente as suas razões. E que definitivamente esse controle não é arbitrário, que vivemos numa teia sutil e perfeita, onde tudo se encaixa e faz sentido, e que temos participação efetiva sobre nosso enredo, mas que em alguns momentos temos que simplesmente confiar e aceitar.
Dos momentos mais grandiosos (felizes ou tristes) aos mais prosaicos, se pararmos para observar além do óbvio, podemos ver um cuidado e um carinho que demonstram ter alguém por nós além de nosso entendimento. E acredito que a nossa sensibilidade a essas pequenas delicadezas é maior quando estamos impactados por grandes e transformadoras emoções. Ou até por isso ficamos mais conectados com o divino. O fato é que recebi esses dias dois presentes em forma de livros. Foram os livros certos na hora exata, no momento em que eram necessárias aquelas palavras.
No último dia dos pais, resolvi dar ao meu um livro, já que ele há algum tempo todas as vezes que me visitava, percorria a minha estante à procura de algo novo pra ler. Entrei na livraria sem saber ao certo o que comprar e a vendedora me sugeriu Rubem Alves. Entre diversos títulos um me chamou atenção: ‘Pimentas’ (meu pai adorava pimenta), palavras que ardem e fazem pensar. Comprei e levei pra ele de presente. Na noite em que dormi com ele no hospital, ele me disse que havia lido o livro, tinha gostado e que eu poderia pegá-lo pra ler. Assim fiz e a cada texto a minha perplexidade aumentava. É um livro sobre o fim da vida, sobre o sentido da existência, sobre esperanças, sobre a perspectiva da morte! Crônicas lindas, bem humoradas e de uma enorme doçura com assuntos tão difíceis. Faz refletir e ao imaginar meu pai lendo aquelas palavras, acreditei ter sido uma preparação para o que viria.
Outro presente, dessa vez a mim mesma, foi o lindo ‘Para Francisco’ da publicitária, blogueira e escritora Cris Guerra. Esse livro figurou na minha lista de desejos por alguns anos. Quando efetivamente o procurei estava esgotado nas livrarias. Um dia vi o anúncio da loja virtual da autora em que estava disponível, entrei e tentei comprar, mas não consegui concluir, erro no site. Recebi email da própria Cris tentando resolver a questão. Alguns contatos depois, compra realizada com sucesso, só aguardar! Fui à BH por um final de semana pra ficar com meu pai no hospital e só retornei quando ele já não precisaria mais de meus cuidados, 18 dias depois, com a maior dor que já sentira nessa vida. O livro tinha chegado.
Pensei muito se o leria ou não nesse momento, afinal era uma triste história de um amor interrompido, da partida súbita de um pai a dois meses do nascimento do filho, do sofrimento de uma mulher pela perda do homem amado e pela perspectiva de ser mãe sozinha, da dor da perda que nos espreita. Pensei se a minha própria tristeza já não bastava. Mas a história me chamou e eu a li. E foi tudo que eu precisava nesse momento, a morte transformada em poesia e esperança, o sofrimento transmutado em sede de viver e ser feliz, o amor perpetuado na ausência física e nos pequenos milagres da vida. O livro fala muito mais da vida que da morte, muito mais de alegrias que de tristezas, é uma obra que fala de amor! Tivesse eu o lido quando soube dele, talvez ele se perdesse de mim. Agora foi colo de palavras!
Acredito que as coisas acontecem por uma razão, um cuidar. E meu sentimento hoje é gratidão!

Seu texto me fez pensar sobre as perdas sofridas e inevitáveis. Não há melhor forma de preparar-se que cuidar da vida.
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