Há alguns anos escrevi um texto para o dia internacional das mulheres, em que questionava a necessidade de se ter um dia especial para reverenciá-las. Ok, dia da mulher é todo dia, dias das mães é todo dia, dos pais, dos homens, das crianças e por aí vai. Todos os dias devíamos reverenciar a vida em todas as suas manifestações, humanas ou não. Mas no embolar dos dias, que passam sem que consigamos sequer olhar pra nós mesmos, esses dias especiais exercem um papel interessante de jogar luz a esses ou aqueles. Todos nós sabemos que a maioria deles foram criados para gerar consumo, aquecer a economia, movimentar o comércio. Mas não deixam de mexer com a nossa sensibilidade e podem motivar demonstrações sinceras de afeto e reconhecimento.
Mas, ao contrário de outros, o dia 08 de março não foi criado como apelo de afeto ou consumo (a despeito de ser explorado como tal) e sim de luta. E falar em luta por direitos iguais, por respeito e dignidade em pleno século XXI pode até parecer obsoleto ou desnecessário. Não é. E essa constatação não me deixa feliz, nem mesmo entusiasmada. É uma melancólica comprovação, à luz de fatos que acontecem todos os dias no Brasil e no mundo, de que a luta ainda é necessária, o debate sério é premente e urgente, a divulgação é essencial e os estudos sociológicos imprescindíveis.
Claro que há avanços sociais, conquistas perenes e uma mudança de olhar em uma grande parte de homens e mulheres. Não partimos mais de patamares tão toscos e inacreditáveis como as pioneiras feministas. Mas talvez esse seja o grande problema. As manifestações de machismo e misoginia, de abusos e segregações, ao menos no mundo ocidental, acontecem encobertas e restritas a ambientes íntimos, banhadas por uma sutil e fina camada de politicamente correto. Alguns casos explodem em crimes bárbaros, em episódios de ódio explícito, em escândalos aqui e acolá, mas a grande maioria dos fatos são invisíveis e silenciosos e sequer reconhecidos como problema pela própria vítima.
Não sou engajada em nenhum grupo feminista, não simpatizo com nenhuma manifestação agressiva seja de qualquer ordem, não sou a favor do aborto, nunca fui e nem iria a nenhuma Marcha das “vadias”, como não iria à parada gay nem em qualquer evento parecido. Mas, com as ferramentas que tenho, tento trabalhar pelo empoderamento* feminino e de qualquer outro gênero, pelo respeito à individualidade e aos direitos do ser humano, por igualdade de oportunidades e observância das diversidades. Merecemos um mundo em que as mulheres não tenham que, a todo instante, brigarem por um ajustamento que deveria ser natural; em que os homens não se sintam ameaçados pelo crescimento pessoal ou profissional de mulheres; um mundo em que homens e mulheres, preservando suas diferentes características, possam coexistir, cooperar uns com os outros, e se olhar mútua e horizontalmente com mais serenidade.
E esse não é um mundo utópico, ele existe e pode ser visto por aí e convive como em universos paralelos, com a distopia da violência doméstica, dos estupros, dos abusos de toda ordem, da misoginia gratuita. Por isso a luta ainda é necessária! Por isso e por sermos seres fortes, capazes de lutar e resistir sem perder a ternura, é que merecemos todas as reverências! Parabéns Mulherada! E pra comemorar a data, melhor que flores e bombons apenas, senta aqui, vamos conversar?
*Empoderamento é a ação social coletiva de participar de debates que visam potencializar a conscientização civil sobre os direitos sociais e civis. Esta consciência possibilita a aquisição da emancipação individual e também da consciência coletiva necessária para a superação da dependência social e dominação política.
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