O tempo e sua crescente pressa é temática recorrente em meus escritos, sejam eles prosa ou verso; mas é que toda essa velocidade vem me causando um grande assombro! Essa afobação toda nos puxa pela mão e num piscar de olhos estamos envelhecendo. Não sei se acontece com todo mundo, mas quando nos aproximamos das idades mais redondas e quanto mais se avança em décadas, o mundo ganha conotações diferentes, cores variadas. Mudamos principalmente o olhar e o pensar. Bom que seja assim. Não me suportaria se pensasse como aos vinte anos!
Mas ao mesmo tempo em que consigo perceber as minhas transformações internas, não reconheço a idade que me pesa nos ombros e no RG. Sempre que me olho atentamente no espelho (de preferência sem os óculos), a senhora que me fita ainda não ocupa a autoimagem que construí, e que está e estará sempre defasada com o tempo. Alguém se identifica? O negócio é tratar de manter o frescor da alma e a vontade de realizar e aprender, elixir da juventude da melhor qualidade! Da casca a gente vai cuidando e ajeitando.
A vida passa rápido demais, hoje eu sinto! Ah, se soubéssemos disso antes de desperdiçar tempo e energia com tantas tolices! Ah, se soubéssemos disso quando ansiamos pelo crescimento dos filhos! Ah, se soubéssemos disso antes de perder alguém tão amado e necessário! Ah, se soubéssemos disso antes de cultivar sofrimentos inúteis! Mas não sabemos, não sentimos. E de nada adianta que os mais velhos nos digam, não acreditamos! Como de nada adiantará essas palavras para os jovens com toda a vida pela frente e uma coleção de certezas absolutas. Só os contemporâneos estenderão!
Quando jogo luz aos meus passos até aqui, avisto muitos trechos deslembrados. Passamos tanto da vida num moto-contínuo que nossa memória encosta o enfado nos cantos, talvez pra resgatá-lo mais adiante, quando a lucidez começar a falhar e mergulharmos em internalidades é nossa salvação. Mas o fato é que boa parte da vida, tão rápida, passamos sobrevivendo à rotina incessante e aos percalços enfrentados. Talvez sejamos mesmo colecionadores de momentos. Como em uma molécula de DNA em que várias sequências do código genético não traduzem nenhuma informação relevante, mas estão ali para dar suporte às sequências especiais; assim tece a nossa existência. Instantes sem aparente importância, mas que apoiam e significam os grandes momentos.
*‘Navegar é preciso, viver não é preciso’!Nada tão impreciso que a vida. Sem manual, sem script, sem bússolas capazes de apontar direções inequívocas; mas navegar, ir adiante, seguir em frente é a única opção viável. E se temos que seguir que seja celebrando a vida e correndo atrás do tempo que perdeu o freio e desabala ladeira abaixo. Viva La vida!
(*Fernando Pessoa)
Comentários
Postar um comentário
Leitores, deixem seus comentários e impressões: