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Pai querido



Pai querido,


Nove meses sem você e a gestação dessa ausência ainda não se cumpriu. Difícil essa arte de seguir em frente com o coração incompleto. Devíamos aprender isso na escola! Hoje o espanto diante da vida anda de braços dados com a incompreensão diante da morte. 

A vida segue é verdade e segue trazendo contentamentos. A cada sorriso ainda busco o seu olhar pra poder compartilhar. Todos os dias me lembro de você, às vezes com alegria outras com lágrimas. Como me faz falta seu jeito coruja de ser, sempre orgulhoso dos feitos de suas mulheres. Em tudo que realizo penso em você, no apoio e presença que sempre fez questão de mostrar.

Todas as noites, nesse tempo árido de sua presença, espero um encontro mesmo que em sonho. Tanta coisa pra te contar e pra entender. Vou me reconfortando na tentativa de autoconvencimento de que tudo acontece quando tem de ser e numa certeza empírica de que você está em paz. Sigo buscando a minha. 

Me lembro de você nos registros de minha infância captados e revelados por suas mãos e que espalhei em meu canto da casa pra me acalentar. Me lembro de você quando olho pros meus filhos que seguem agora um caminho de conquistas. Me lembro de você nas peraltices da Gabi que colore nossas vidas e ia te fazer contar pra todo mundo o que ela anda aprontando. Me lembro de você na benção que recebemos com a chegada da Malu e que veio pra aliviar nosso coração apertado de sua saudade. Me lembro de você quando vejo os olhos de minha mãe que ainda teimam em procurar a sua companhia.

O tempo nos ajuda a olhar pra frente. Não acreditava, mas a dor se modifica e se acomoda, aprendemos a conviver com ela por falta de outra opção. Sei que você se preparou e que está bem. Quando puder, mande alguma notícia. O amor que você deixou em mim é meu esteio e por isso sou grata à vida! Eu amo você!

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