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Só precisamos do mínimo





Sempre gostei de política. Gosto de saber, de ler, de debater, de ouvir argumentos divergentes desde que sejam factíveis. Procuro me manter informada por diferentes meios de comunicação. Há muito não levanto bandeiras nem entro no front de peito aberto, por absoluta falta de referência digna da minha defesa ou confiança. Ando triste com esse Brasil, assim como muitos brasileiros. Ando envergonhada do que assisto todos os dias. Ando sem esperanças.

De vez em quando até me bate uma ‘inveja’ daqueles que defendem, que idolatram, colocam no pedestal, brigam, acusam o lado oposto, amam. ‘Fé cega, faca amolada’. E não falo dos que defendem por interesses próprios ou por obrigação profissional, esses não têm escolha, estão presos à ideologia umbilical. Falo dos que defendem por paixão gratuita, que acreditam e ponto. Devem ser mais felizes!

Àqueles que têm um corrupto pra chamar de seu, peço desculpas, mas não consigo entender a relativização que reina hoje no Brasil, a despeito da enxurrada de provas, vídeos, grampos, listas e delações. Inverossímil um líder político (qualquer um), rodeado de amigos e bandidos por todo lado (bandidos-amigos esses presos, confessos, condenados ou coisa similar) ser uma vítima de uma gangue e inocente que é bancar o cônjuge traído e ser o único a não saber. Pelo amor de Deus, me poupem!

Poupem-me ou me convençam, pois ainda não vi nem um só discurso de defesa que não seja uma acusação ao lado de lá. Por mais que procure (e tenho procurado) não encontro argumentos sólidos baseados só e somente só, na conduta do político em questão. Só vejo de todos os lados, pesos e medidas diferentes. O crime do meu é mais perdoável que do seu, e vice versa. Tipo “Democracia é quando eu mando em você, ditadura é quando você manda em mim”, Millôr Fernandes.

Essa esdrúxula situação a que fomos catapultados por uma sucessão de erros e condutas pouco admiráveis, que tem como protagonistas a mais democrática lista de políticos de peso, que há anos tecem suas teias gulosas sobre o patrimônio da nação brasileira a despeito de ideologias, histórico de lutas, partidos políticos, ou o que quer que seja, ainda irá perdurar por um longo tempo. Não sou pessimista, mas sem nenhum lastro de credibilidade, sem reservas morais, corremos sérios riscos de sermos ludibriados por um salvador da pátria qualquer. Não podemos esquecer que depois de uma ditadura tenebrosa, de fervorosas manifestações por eleições diretas nas quais o país era uníssono, o povo elegeu o Collor, caçador de marajás! Que Deus nos livre de tamanha desventura!

E a quem serve essa estúpida polarização, senão a todos eles que fazem do país o seu quintal e que dilapidam o dinheiro público em favor próprio há décadas! Será que sempre estaremos fadados a escolher entre uma direita diabólica e pseudopatriota que perpetua benesses à elite econômica e sangra de morte os mais frágeis e os trabalhadores num jogo político sujo e abjeto, e uma esquerda que faz muito pelo social, ganha o respeito do mundo, mas vende a alma ao diabo e faz acordos e coligações inimagináveis a ponto de termos uma chapa Dilma/Temer? Isso sem falar nas malas de dinheiro sujo às quais nenhuma das duas partes abriu mão. 

Em 2018 não quero ter que escolher o corrupto menos malévolo. Não quero ouvir como argumento o velho e triste ‘rouba, mas faz’. Quero um (a) Presidente (a) a serviço de seu país, do (a) qual possa me orgulhar e que não tenha senões jurídicos ou éticos em sua biografia. Quero votar com alegria e convicção e não por desaforo, quero debates de ideias, quero solução de problemas. Quero justiça isenta, sem espetáculos bizarros nem egos inflados. Quero instituições legítimas, campanhas eleitorais modestas e limpas, acordos coerentes, colaboradores técnicos, governo competente. Quero acreditar novamente. Quero respeito à minha inteligência e à minha liberdade de expressão. Não é muito, é só o mínimo, é o que precisamos.

Nada do que se apresenta hoje me serve, nenhum discurso atual me convence. Do duelo que assistimos espero que pereçam todos!

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