Qual é a sua origem? Quem são seus antepassados? De onde vieram? Perguntas difíceis de responder à medida que nos distanciamos no tempo e no parentesco de nossos familiares, ainda mais em um lugar que recebeu tanta diversidade étnica como no Brasil. Meu pai era um aficionado por histórias de famílias, genealogias. Vivia percorrendo museus, cemitérios e cartórios em busca de registros antigos que conseguissem montar o quebra-cabeça das famílias que lhe circundavam. Nesse país de miscigenação também sou fruto dessa miscelânea étnica que está presente em nove entre dez brasileiros. Apesar do biotipo e da falta de melanina, tenho raízes européias e também negras. Sim, meu bisavô, avô paterno de meu pai, era mulato, carinhosamente chamado de Juca Bundão e sua generosidade glútea segue percorrendo a genética da família por muitas gerações. Minha avó paterna era filha de imigrantes alemães, genuinamente louros de olhos azuis, o que fez clarear a tez desse clã e tornar a descendência negra apenas história.
E por ter nascido branca, em uma família de classe média, ser heterossexual, nunca senti na pele nenhum tipo de preconceito. Estudei em escola particular e não tinha colegas negros. Fiz faculdade em Universidade Pública Federal, nos idos anos 80, e naquela época o número de estudantes negros era pequeno, bem pequeno. Trabalhei alguns anos em escola particular e muito poucos alunos eram negros. Naquela época isso não era uma questão pra mim. Sempre me intitulei uma pessoa livre de preconceitos raciais, mas não sabia nada sobre isso, não pensava no assunto como problema meu. Afinal, eu e minha bolha, nunca fomos alvo desse mal.
Sim, eu e todos aqueles iguais a mim, vivemos numa bolha a salvo de olhares tortos, de comentários torpes, de atitudes idiotas protagonizadas por gente igual a gente, ou mesmo por nós. Faça um Raio-X em seus pensamentos, atos, sentimentos, consentimentos e omissões e atire a primeira pedra quem nunca se pegou preconceituoso. Eu não atiro e essa constatação me aterroriza. A consciência de que o preconceito mora em mim e se manifesta de alguma forma, mesmo inconscientemente, me deixou com um incômodo imenso. E esse incômodo me levou a pesquisas, leituras e estudos sobre o assunto que passou a ser problema meu e é de todo mundo, ou ao menos deveria ser. O preconceito racial está nas entranhas dessa sociedade, é transmitido visceral e silenciosamente nas entrelinhas da história. É um problema de representatividade, ou da falta dela.
Quem acompanhou a edição desse ano da FLIP (Festa Literária Internacional de Paraty), pode acompanhar várias manifestações sobre o que é ser negro no Brasil e mundo afora. A homenagem ao escritor Lima Barreto, o emocionado e catártico depoimento da professora aposentada de Curitiba, Diva Guimarães; a fala do ator Lázaro Ramos, o depoimento da escritora Conceição Evaristo, dentre outros, foi uma pequena mostra do que isso significa e do quanto estamos há anos-luz de uma sociedade igualitária e justa, quem não viu, vale a pena ver e refletir sobre o assunto. É preciso falar sobre isso, pensar sobre isso e fazer alguma coisa a respeito disso, urgente. A falácia de que o Brasil é um país amistoso e livre de preconceitos não se sustenta mais.
Muitos são os preconceitos espalhados por aí, mas acredito esse seja o mais perverso. Primeiro porque vivemos em um país de maioria negra (54% da população, IBGE 2014) que ainda vive sob padrões brancos, e depois por que é dissimulado, camuflado, sorrateiro e encoberto por uma fina camada de civilidade e por muitos clichês incessantemente repetidos, mas não refletidos. Pra quem quiser começar a pensar, ou reforçar o que já pensa ou sente, recomendo o livro ‘Na minha pele’ do ator Lázaro Ramos. Sem vitimização, sem agressões e com uma clareza enorme, ele põe o dedo na ferida e os pingos nos is. É uma voz que precisa ser ouvida!É mais que uma questão de pele, é questão de vida!

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