“Meu pai tinha uma eletrola Philips, muito moderna, automática. Não podíamos mexer, mas adorávamos vê-la funcionando sozinha, com todos aqueles LPs empilhados caindo um após o outro.
Quando crianças, nossas manhãs de domingo eram embaladas por Dorival Caymmi, Chico Buarque, Edu Lobo, Milton Nascimento, Nara Leão, Toquinho e Vinícius, Elizeth Cardoso, Miltinho e outras pérolas da MPB. De vez em quando, tínhamos que ouvir, mesmo sob protestos, a coleção de clássicos do meu pai, de Beethoven a Vivaldi com todas as suas sinfonias, sonetos e valsas.
Quando ficamos adolescentes, a mesma eletrola, já não tão moderna e agora denominada som, passou a tocar Lulu Santos, Kid Abelha, Rita Lee e outros nomes do rock nacional e internacional. Meus pais protestavam veementemente contra o barulho da novidade, mas no auge da contestação, não podíamos admitir gostar de “música de velho”. Hoje, no entanto, aqueles primeiros são meus músicos prediletos e todas as vezes que vou a uma loja de discos, procuro uma reedição em cd daqueles Lp’s que me ensinaram a gostar de boa música.
Somos todos seres musicais. A vibração de uma música pode despertar em nós os sentimentos mais diversos. Podemos ir de uma alegria esfuziante a uma profunda melancolia só trocando a estação de rádio ou a faixa do disco.
Admiro os compositores e sua capacidade de transformar sons que sozinhos não significam nada, em melodias perfeitas. Não conheço nenhuma pessoa que consiga ficar indiferente a música, qualquer que seja ela. Preferências à parte, a música é uma unanimidade humana.
Podemos em poucas notas nos transportar para épocas remotas de nossas vidas, relembrar vivências e pessoas que acreditávamos esquecidas, podemos até sentir saudades de uma época que não vivemos. A música é mágica; atravessa nosso consciente e vai dar direto ao coração. Não precisa de palavras, se bem que uma boa letra é sempre um presente para a mente, mas a música fala por si e nos embala, enternece, apaixona, transporta, entristece, alegra, abranda, preenche, agita, eleva, irrita, acalma e dá vida, com todas as suas nuances e emoções. ” (Do livro ‘O último brinde! ’ 2012)
Este texto foi escrito há muito tempo, já virou memória da memória descrita. As lojas de discos quase não existem, CD já não faz a alegria de ninguém, nossas músicas prediletas estão ao alcance em plataformas digitais. As coisas andam mudando rápido, mas o poder da música não muda!
Pois bem, republico esse texto para falar de emoção! Minhas palavras cruzaram o caminho da música, pelas mãos e sensibilidade do compositor e amigo Robson Ebaid. Que alegria! Materializaram-se em mim as palavras do genial Ferreira Gullar “A arte existe porque a vida não basta!”. E não basta mesmo, essa vida comezinha à qual dedicamos uma parte imensa de nossa existência e energia, que nos traz alegrias e sofrimentos, sempre me pareceu insuficiente pra justificar nossa estadia nesse planeta, não pode ser um fim em si mesma.
Arte transcende, confere sentido às emoções que vivemos, nos conecta com algo maior e mais sublime, nos abastece de energia vital. ‘Não há nessa nossa vida, tantas vezes sem sabor, uma emoção mais benfazeja, que aquela de criar, o que ainda ninguém pensou. ’(Poema ‘Criatura’ do livro ‘Um quarto de cortinas azuis, 2014)
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