“Somos transição, somos processo. E isso nos perturba. O fluxo de dias e anos, décadas, serve para crescer e acumular, não só perder e limitar.” Essa afirmação do livro Perdas e Ganhos de Lya Luft é uma boa e necessária reflexão. A vida é processo e na maioria das vezes abstraímos o caminho e focamos apenas no resultado e nas perdas que acumulamos pelas estradas. Isso vale para aspectos profissionais, emocionais e pessoais. Mesmo por estradas enviesadas, mesmo seguindo um tanto distraídos de quem realmente somos, contabilizamos ganhos.
Nem sempre sabemos onde queremos chegar e vagamos ao sabor do vento meio entorpecidos pelas demandas que se impõem. Porém, sempre chega um momento na caminhada que somos sacudidos por acontecimentos, naturais ou inesperados, que nos tiram da zona de conforto e nos fazem acordar! E, a partir do momento que despertamos, não há como retroceder, mesmo que a escolha seja permanecer no mesmo lugar.
Pensem numa figura na qual nos seja solicitado que enxerguemos algo específico. Olhamos mil vezes e não vemos, até que conseguimos enxergar sozinhos ou com ajuda. Pois bem, depois que se encontra, não há como olhar e não ver. Aquela figura fica ali, explícita, escancarada. E pensamos como não víamos antes? Como seguir em frente com aquela figura perturbando a paisagem?
Esta é a metáfora da trajetória de cada um de nós. Tantas coisas escondemos de nós, consciente ou inconscientemente, por anos a fio. Porém, depois do primeiro feixe de luz, não há como deixar de ver. E saber requer atitude, escolha, apropriação. Se apoderar da própria existência, acolher nossos processos, entender o que é pra fazer nessa vida, além de seguir o bando. Muitas vezes teremos a sensação de ter inutilizado tempo demais, cegos e cambaleantes. Processos. Cada um tem seu tempo de despertar. Sair do casulo antes da hora pode ser letal, como com as borboletas.
Perdas não são tragédias, fazem parte do pacote. Perdemos pessoas, perdemos o controle, perdemos coisas, perdemos a nós mesmos muitas vezes. E não quer dizer que não causem dor e sofrimento, causam e muito, no entanto, ninguém está a salvo delas. Não há redoma que impossibilite vivenciar perdas de toda ordem. Voltando à Lya Luft: “nisso reside nossa possível tragédia: o desperdício de uma vida com seus talentos truncados se não conseguirmos ver ou não tivermos audácia para mudar para melhor - em qualquer momento, e em qualquer idade.”
Mudanças são oportunidades de crescimento, chances de ver ganhos mesmo diante da dor, do medo, da imprecisão. Não é fácil, não é leve, não é simples. Mas é libertador abraçá-las e acreditar em seu potencial de nos melhorar. Pra finalizar, vai uma frase de um dos meus gurus, Rubem Alves. “Não haverá borboletas se a vida não passar por longas e silenciosas metamorfoses”
Comentários
Postar um comentário
Leitores, deixem seus comentários e impressões: