Esses tempos que vivemos são a prova que o improvável acontece, e que nos pega com as calças na mão! Quase dois meses inteiros com a vida em stand by, esperando pra continuar tocando o barco. Por enquanto, atracados no cais do amanhã, vamos fazendo o que dá pra fazer desses dias algo que nos dê um alento, um sopro de alegria nesse mar de tristezas tão atrozes.
Por vezes me sinto extenuada! Não por ficar em casa, que nesse momento, mais que nunca, é abrigo e proteção, mas por tudo de mal que nos ronda da porta pra fora. Hoje não precisamos sair pra saber o que passa nas ruas, no mundo! As informações caem em nossas mãos como vento, que sopra tudo que é bom, mas também tudo que fere e assombra. Confesso que quando tudo isso começou, ainda longe de nós, também achei que logo passaria, estávamos a salvo. Depois, tola e ingenuamente acreditei que poderíamos fazer do inexorável, uma lição coletiva e evoluir! Agora, sinceramente, não sei mais o que pensar!
As demonstrações de que somos uma espécie afeita ao canibalismo são cada dia mais comuns. Muitos se alimentam do sangue dos iguais, principalmente daqueles que mais precisam de olhares atentos. Não em todos os lugares, claro, mas por aqui, em nossas cercanias tupiniquins, as evidências são óbvias. Anda nos faltando o básico, o mínimo, como nação. Anda faltando humanidade e alteridade, e sem isso não sobra quase nada. Lamento profundamente os aplausos que ainda insistem em defender o indefensável! Orgulhosamente faço parte da resistência!
Pra não sucumbir a toda essa esquizofrenia coletiva que assistimos perplexos, minhas armas são a escrita, a leitura, a observação atenta e reflexiva, e o cultivo dos afetos. Ando enxergando coisas que antes não via, percebendo detalhes que passaram despercebidos, descobrindo sentimentos adormecidos. Talvez saia desses dias de isolamento uma pessoa diferente da que era há dois meses. Não sei se melhor, mas, diferente. As situações limites têm o poder de nos transformar, de apontar prioridades, de mostrar quem deve ficar e quem já não faz mais sentido. E sim, estamos vivendo uma situação limite, independente da embarcação na qual enfrentamos a tormenta. Se alguém não percebeu isso ainda é porque está faltando empatia.
Com o trabalho suspenso, projetos adiados, encontros impossibilitados, uma nova rotina se estabeleceu. Meio anárquica, é verdade, entretanto genuína. Abandonamos o relógio, o dia corre sem compromissos com o tempo. Voltei a cozinhar em casa, o que não fazia há tempos. Tenho tempo de admirar o pôr do sol, de perceber os pássaros que visitam meu quintal, são muitos aliás. Sabiás cantam na janela, maritacas fazem algazarra na amoreira, canários vem em busca de alimento e até um lindo tucano anda fazendo visitas diárias. Um privilegiado espetáculo!
Meu filho plantou uma horta que já começa a enfeitar nossa salada, e todos os dias me surpreendo com a força da vida que cresce alheia às nossas apreensões. Todos os contraditórios sentimentos que me povoam têm se transformado em poesia, que espalho por aí, tentando contribuir um pouco para espantar as tristezas e incertezas. Ando recebendo muitas coisas bonitas também, poemas, canções, boas conversas que preenchem a alma de esperança e fé nessa humanidade que precisa se reinventar. É preciso resistir!

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