Em tempos de pandemia, nos preparamos para uma nova normalidade. A vida de todos foi impactada de alguma maneira, ninguém sairá ileso dessa quarentena. Aqueles que perderam algum ente querido para o vírus, que não puderam se despedir direito, vão carregar essa dor vida afora. São muitos! Aqueles que mantiveram a saúde em seu entorno, sairão mais inteiros, entretanto penso que não voltaremos mais àquela normalidade antiga. Hábitos novos, reflexões novas, novos valores. Definitivamente o mundo pós-pandemia será outro, e espero que mais atento aos apelos que se escancararam nesses dias reclusos.
Uma das mais emblemáticas mensagens que recebemos foi o quão desigual ainda é o nosso país. Nossa estrutura social é cruel e impinge a um número imenso de brasileiros o lugar de invisíveis. Dramas anônimos passaram por nós, seja pela TV ou internet. Gente sem renda, sem casa, sem abrigo, sem nome. Um contingente absurdo de nossa população que não tem acesso a informação, aos cuidados básicos de saúde. Triste, muito triste. Mais triste ainda é ver que, em meio ao caos instalado, continuam e continuarão invisíveis. O básico não dá voto!
Todos os setores foram drasticamente impactados por essa crise sanitária, que pasmem, ainda é negada por uns e outros, mesmo sendo planetária. Lamentável. Mas o que me traz aqui hoje é a Educação. Assim como em todos os lugares do mundo, o encontro nas escolas foi suspenso há mais de dois meses. Medida sensata, necessária e inquestionável. Escola é aglomeração, contato, proximidade. Tudo que temos que evitar por enquanto. Mas escola é aprendizado, é conhecimento, acolhimento. E para tentar manter esse vínculo tão fundamental na vida de todos, a escola teve que se reinventar.
A multimodalidade no aprendizado já deveria ser uma realidade mais cotidiana, não é, ou melhor, não era até ontem. Tivemos que improvisar e encarar uma maneira diferente de aprender e ensinar. Professores, gestores, alunos e pais no mesmo barco da educação à distância. Mesmo com a tecnologia gritando em nossos ouvidos há tempos que veio pra ficar, que tínhamos que aprender a usá-la, procrastinamos. A escola, como instituição, sempre demora a incorporar as transformações sociais. Mesmo em pleno século XXI, ainda nos prendemos às práticas nas quais nos formamos. Não por vilania, mas porque é difícil mesmo mudar paradigmas tão arraigados.
Pois bem, na marra e com milhares de dificuldades, tivemos que mudar. Ou o desafio, ou nada. E o não fazer nada não é uma opção inteligente, a meu ver. Vamos tateando esse espaço cibernético e tentando fazer chegar aos estudantes uma parte do conhecimento que ele buscava na escola. Todos vão receber? Não. Todos vão se esforçar? Não. Todos têm os acessos necessários para esse ensino remoto? Também não. Mas o que percebo, a despeito de tudo, é que há vontade. Tenho visto professores se desdobrando e fazendo coisas inimagináveis há apenas dois meses. Tenho visto também pais dedicados e alunos interessados. Todos fazendo o melhor que podem no momento, mesmo via e-mail, whatsapp, youtube e aplicativos.
E, acredito eu, que todo esse movimento nos trará um crescimento expressivo. A escola será diferente quando pudermos nos aglomerar sem receio novamente. Professores aprenderão que tecnologia não os substitui, mas pode auxiliar muito no processo de aprendizagem. Pais aprenderão que a escola é essencial e que os professores são capazes de ensinar muitos jovens semelhantes aos seus filhos, de uma só vez, quase mágica! Estudantes aprenderão que aprender depende muito mais deles mesmos e que ter autonomia em sua trajetória escolar é boa parte do caminho andado.
Mas o mais importante aprendizado que alcançaremos nesse tempo de distanciamento, é que a aprendizagem tem uma imensa relação com o afeto. Como as relações humanas são necessárias! O contato, o olho no olho, a proximidade, o sorriso, o bom dia, o abraço, o acolhimento, o direcionamento. Somos seres sociais e precisamos do outro. A escola vazia é triste! Professores sem alunos não tem razão de ser e alunos sem escola ficam incompletos. Hoje e por um tempo que ainda não podemos prever, a escola migrou para as plataformas digitais, uma forma de estarmos conectados mesmo na distância. Mas vamos juntos, mesmo que distantes fisicamente.
Tudo isso vai passar! E quando passar, voltaremos a nos encontrar, modificados, talvez melhorados. Mas de uma coisa podemos ter absoluta certeza e esses tempos estranhos só reforçaram o que Paulo Freire disse: Se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda.

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