Ouvi de um amigo querido, no início da pandemia, ‘vamos ver o que irá sobrar de nós depois que tudo isso passar’. Depois de mais de cem dias de confinamento, a reflexão ainda ressoa em minha cabeça. O que será de nós? Como será essa tão falada nova normalidade? Como retomaremos a nossa vida de antes? Ou melhor, o que retomaremos dessa vida tão recente, mas tão distante?
Acredito que não há quem esteja atravessando essa tormenta ileso. Em diferentes profundidades, os impactos estão presentes em cada um de nós. Impactos emocionais, financeiros, práticos. O distanciamento social a que nos submetemos gera consequências. Por mais que o trabalho continue em home-office e que a internet nos amenize um pouco as saudades, a impossibilidade dos encontros dói e a certeza de que todo mundo ainda existe alegra.
E dói e alegra independentemente da idade. Muitas vezes vemos as crianças como alheias aos sentimentos comuns, como se não tivessem alcance de todas as emoções que pairam no ar, da casa, da rua, do planeta. Tolos que somos! Talvez sejam elas que mais se conectem com todas essas etéreas energias emanadas de tantos corações, ainda mais em tempos de sentimentos tão agudos e intensos.
Essa semana tive a confirmação disso, em duas situações distintas, mas que me disseram muito dessas crianças de hoje, conectadas com o mundo e com elas mesmas, muito mais intensamente do que podemos imaginar na nossa equivocada soberania do mundo ‘adulto’. Precisamos aprender com elas a arte de sentir por inteiro, e, mesmo que a expressão desse sentir muitas vezes seja sutil, lapidar a nossa sensibilidade para entendê-las é um ato de amor!
“Mesmo alguém pequeno é um universo! ”. Não, essa não é uma frase de nenhum filósofo condecorado. É uma frase de uma garotinha de 6 anos, espontânea, escrita em um desenho para a escola. O reconhecimento de que há coisas demais do lado de dentro, e que ser universo não é prerrogativa de gente grande. Na ilustração ela traz o planeta Terra e estrelas. Uma alusão ao Universo que ela já ouviu falar. Sim Carol, dentro de nós, pequenos ou grandes, há um universo inteiro de planetas, estrelas, buracos negros, matéria escura, brilho e substâncias.
Outra garotinha, dessa vez de 5 anos, cai num choro compulsivo após uma videoconferência com a família para celebrar um aniversário. Aqueles que eram próximos, agora estão limitados a uma tela de computador. Mas o encontro existe, e a esperança de voltarmos a nos abraçar em breve é alimentada a cada encontro remoto. E o choro foi de alegria! Talvez a certeza que tudo voltará a ser como era, algum dia! Gabi, voltaremos a nos abraçar! Mesmo que demore um pouco. Mas o amor é imenso e resiste.
Estamos em um momento de exceção e isso vai passar, alimento todo dia essa esperança! E talvez para as crianças esse entendimento seja mais difícil. Fico pensando que seja complicado para elas um problema tão enorme que nem seus pais podem resolver! Mas, elas nos dão alento com suas demonstrações genuínas capazes de nos conectar com emoções e percepções tão profundas. O que sobrará de nós? Tomara que sejam nossas crianças internas e todo o universo que as preenchem! Obrigada Carol e Gabi pelas lindas lições!
Ilustração: Caroline Franciscani Baltar

Muito lindo. Como aprendemos com elas. Sábias crianças.
ResponderExcluirCom certeza temos muito a aprender com elas! Obrigada pelo comentário!
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