Inaugurei uma geração de mulheres na família. Sou a mais velha de quatro irmãs. Um mundo feminino que me moldou e onde primeiro aprendi sentimentos de sororidade. Um universo de vivências comuns, mas individuais, que me ensinou a seguir acolhendo e tocando os espaços alheios com delicadeza e respeito (nem sempre com serenidade, admito), mesmo que tenhamos tido momentos de tensão, o que é inevitável. Irmãos são testemunhas de nossa própria história e manter esse afeto intocado na vida adulta, demanda exercícios de alteridade e empatia, para além da consanguinidade. Seguimos unidas, acolhedoras umas das outras, formando uma rede protetiva e um colo incondicional. Uma benção!
Com duas delas, dividi amor e ódio enquanto crescíamos e buscávamos a nossa individualidade em meio a crises adolescentes, descobertas do mundo, assombros diante da vida, amizades e afetos comuns. Ora éramos inseparáveis, ora a distância era urgente e aguda. Algumas vezes confidentes, outras delatoras, outras cúmplices. Sempre fui tímida e introspectiva, o que me colocava em dificuldades para buscar colo e liberdade. Carregava também, por ser a primogênita, um fardo extra de expectativa e cobrança, fui cordata e minha alma inquieta e revolucionária ficou adormecida por mais tempo que gostaria. Por isso muitas vezes invejei nelas o que não conseguia ser e isso custou algumas farpas, antipatias gratuitas, portas na cara, caras emburradas, nãos ditos de forma ríspida e apressada, para depois dizer o sim entredentes. Histórias...
Com a caçula, que nasceu quando eu já tinha 11 anos, foi uma relação diferente. Ela foi a primeira depositária viva do meu instinto materno, já era mãe de muitas bonecas. Sempre fui apaixonada por bebês e desde que ela chegou em casa, eu rondava nossa mãe nos cuidados e depois assumi em alguns horários a missão de trocar, fazer dormir, levar para passear, alimentar. Lembro que adorava exibi-la aos colegas de escola. Nos passeios que fazíamos na rua, nos arredores de casa, muitos indagavam se era minha filha, apesar da minha pouca idade, que me mantinha longe da possibilidade de ser mãe àquela altura, impossibilidade essa mais emocional que biológica. Mas somos parecidas fisicamente, o que reforçava as suspeitas. Suspeitas essas que voltaram quando ela ganhou sua filha e eu acompanhava enlouquecida o nascimento de minha sobrinha. Me julgaram avó da bebezinha e achei que tinha um pouco de verdade nisso.
Mas hoje, todas adultas e maduras, somos um quarteto de mulheres fortes e buscadoras, alimentadas, dentre outras fontes, do amor que soubemos cultivar. O que vivemos juntas em casa, antes dos voos solo, compõe nosso álbum de retratos e nosso acervo de casos cômicos e trágicos, que relembramos sempre que nos encontramos. E são momentos que nos permitiram construir o mosaico de vivências de cada uma, regado a afeto mútuo e permeado pelo amor de nossos pais. Somos diferentes, imperfeitas, moramos hoje longe umas das outras, mas somos esteio e certeza de que não estamos sós nessa aventura chamada vida. Somos as irmãs Paixão!

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